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Pedro Mestre, a viola campaniça e o cante alentejano

 

Hoje vamos conhecer o músico e cantor Pedro Mestre, impulsionador da viola campaniça e do cante alentejano.

 

Para os nossos leitores é curioso que o Pedro MF Mestre esteja a entrevistar o Pedro Mestre. Temos o mesmo nome, somos pessoas diferentes, com ofícios diferentes, contudo agora estamos a trabalhar em conjunto para que fiquem a conhecer melhor este músico e o seu trabalho.

 

Pedro Mestre tem origem em Castro Verde, Aldeia de Sete, e desde cedo se dedicou à cultura tradicional alentejana de modo a não a deixar cair no esquecimento, fazendo renascer e perpetuando a viola campaniça assim como também a associá-la ao Cante Alentejano, hoje em dia considerado  Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

 

Pedro teve como mestres neste instrumento musical, Manuel Bento e Francisco António.  Além de a interpretar e ensinar, também se dedica ao seu fabrico. Perante um olhar menos atento é parecida com uma viola clássica, mas quando se aprecia o seu desenho notamos as diferenças. A primeira delas são as suas 10 cordas de aço sendo que a clássica tem seis de nylon. As suas linhas também têm uma curvatura mais suave e delgada. O seu som e o modo de tocar é completamente diferente. Este instrumento musical tem algumas referências escritas datadas 1916. A sua história está circunscrita ao uso na chamada zona “Campo Branco” que compreende Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar e  parte do concelho de Odemira. Embora também haja referencias à mesma em Beja e Serpa. Esteve com más perspectivas na sua continuidade tendo em conta que no final dos anos 80 somente existiam dois mestres da mesma, os professores de Pedro Mestre.

 

Este artista pegou nela e fez o milagre da sua difusão e a englobar em vários projectos dos quais ele faz parte em conjunto com o Cante Alentejano.

 

Com um vasto currículo e participação em muitas actividades, há uma que merece um especial destaque. Desde 2006 desenvolve o “Cante nas Escolas” onde ensina a música tradicional alentejana a alunos das escolas do 1º Ciclo do ensino básico. Esta acção já tem dado frutos práticos como por exemplo o Grupo Coral Juvenil de Almodôvar e o Grupo de Cante Juvenil de Vila Nova de São Bento formados por alunos através a sua influência.

 

O Pedro Mestre está a mostrar a Portugal e ao estrangeiro a tradição musical da Planície Dourada, com várias participações ao vivo e através da sua discografia, que desde 2006 conta com nove álbuns editados sendo o mais recente "Mercado dos Amores" lançado em 2019.

 

Vamos conhecer melhor o artista Pedro Mestre e a sua valência no mundo da Viola Campaniça e do Cante Alentejano.

 

AMMA: Como entrou no mundo da música tradicional alentejana? Teve alguma influência?

 

Pedro Mestre: Sim, desde muito cedo tive a influência dos meus pais, dos meus avós, da aldeia de onde eu sou natural que é Sete como diz na introdução. Desde muito cedo comecei a ouvir os homens nas tabernas, na rua… embora tendo 37 anos de idade por vezes a maioria das pessoas da minha idade não tiveram a mesma vivência que eu, mesmo aqui da mesma região, mas como eu que desde muito cedo gostava e que apreciei todas estas questões ligadas à cultura e à tradição, valorizava os mais velhos, de os ouvir, gostava de estar presente nos ambientes e momentos de convívio, tudo isso foram influências a partir da aldeia, a partir da minha família, da minha mãe principalmente, do meu pai que a música faz parte da nossa vida, não enquanto músico mas como ouvinte e colecionador de gravações e registos sonoros da música tradicional. A partir daí eu começo a querer saber mais e começo um caminho de ir atrás daquilo que eu queria. Nesse tempo quando eu tinha 6, 7 ou 8 anos de idade tenho ideia disso, ouvia os homens na rua, ou saía à rua e ouvia os homens a cantar na taberna numa aldeia que teria na altura 400 habitantes, relativamente pequena, em que basta um falar mais alto que ouve-se,  e às tantas na taberna os homens cantando, 10 ou 12 homens, 4 ou 5 depende, e ouvia-se o cante por toda a localidade e eu ia atrás. O meu pai comprava uma cassete ou um disco de vinil e eu ouvia-o 300.000 vezes. É aí a base, penso eu, de toda esta minha paixão pela música tradicional, pelas tradições do Alentejo.

 

AMMA: Ou seja pelos 7 ou 8 anos?

 

PM: Desde que começo a ter memória de todas essas vivências. A minha mãe conta-me que cantava no berço para mim e para o meu irmão. Se saíamos ou estávamos em casa estava sempre um rádio a tocar, o rádio do carro sempre a tocar, todas essas vivências influenciaram.

 

AMMA: A continuidade da viola campaniça esteve ameaçada, tendo somente dois mestres nos anos 80. Como conseguiu inverter essa tendência? Quantos artistas temos neste momento a tocar este instrumento?

 

PM: Pelos 9, 10 anos de idade frequentei um coral infantil em Castro Verde. Só para o situar na altura, na aldeia estudava até ao 4º ano e depois a partir do 5º ano tínhamos que nos deslocar todos os dias para a sede de concelho que é Castro Verde a 17 ou 18Km por aí, e depois de eu ir para Castro Verde fui para uma turma onde havia alguns colegas que frequentavam o Grupo Coral Infantil, “Os Carapinhas” que ainda existe e que sabendo que eles cantavam lá, e eu gostava bastante, pedi para se era possível entrar neste grupo que eu já conhecia através da rádio local assim como também a viola campaniça. Eu tomo conhecimento da viola campaniça precisamente nessa altura quando eu vou para este grupo coral e infantil. Ouço a viola campaniça através da rádio, num programa da rádio local, que também ainda existe desde meados ou finais dos anos 80, nessa altura passavam na rádio um vinil do Dr. José Alberto Sardinha  com a viola campaniça precisamente com os últimos mestres tocadores. Aqueles que mais se destacavam eram aqueles que eu depois tive a oportunidade e o privilégio de conhecer e aprender a tocar a viola campaniça, o mestre Manuel Bento e o mestre Francisco António, eu trato-os por mestres por mestria por os considerar uns conhecedores da arte. Inicialmente, ouço a viola campaniça na rádio, tinha uma sonoridade que me fascinava, depois quando estava nesse coral infantil estamos a falar com 9 ou 10 anos de idade, eu nasci em 1983, e então em várias actuações que fazíamos por todo o concelho e não só, por vezes acontecia os dois grupos que pertenciam à mesma cooperativa que é a Cortisol (Cooperativa de Informação e Cultura), e o nome de uma ave aqui da região, onde também tem a Rádio Castrense, e existe para trabalhar também a cultura local desde os grupos corais, o artesanato, museus e por aí fora. Então por várias actuações que fazíamos em conjunto eu queria sempre conhecer mais sobre os tocadores, sobre os mestres, embora sendo uma criança não davam muita atenção, aquela situação que o que é que ele quer, não era bem entendido, mas há uma altura em que eles dizem que os jovens e as crianças não têm interesse em aprender a tocar a viola campaniça, que na verdade consideram um instrumento em desuso, um instrumento que está a desaparecer e que com a morte deles, com o desaparecimento destes dois tocadores, corremos o risco desta viola ou a técnica de tocar estas violas se perder. É aí que eu vou para casa e confronto a minha mãe dizendo-lhe que queria mesmo muito aprender a tocar a viola campaniça. Para além de ser um instrumento que eu gostava, era também uma sonoridade e uma vivência que para mim iria dar muito gozo estar na presença destes senhores e conviver com eles. Às tantas começo a aprender a tocar viola campaniça com o Sr. Francisco António, que é tio do Manuel Bento, embora mais novo. Depois quando eu começo a tocar com eles, poucos meses depois eu começo a tocar e a fazer apresentações com eles, indo à Rádio, indo a salas de espectáculos… o que é certo é que eu vou crescendo enquanto pessoa e eles vão ficando mais velhos eles vão atingindo uma idade que já não tinham assim grande vontade de sair e passa a ser o contrário, passo a ser eu a estimular estes homens para tocar para poder sair a mostrar a viola campaniça e portanto a partir dai as coisas começam a ganhar outra dimensão e eu começo a ter uma responsabilidade diferente, que na verdade eu não sentia dessa forma, que eu fazia-o com uma grande vontade e gosto e entusiasmo porque ganhei uma confiança tal, um à vontade tão grande com eles, passando a ser pessoas da mesma família começamos a ter uma cumplicidade uns com os outros e às tantas eles diziam que era uma grande satisfação e um enorme gosto e era a luz ao fundo do túnel o facto de eu ter aprendido a tocar com eles, que era uma esperança de o instrumento não se perder. E é ai, respondendo à sua questão, que toda esta dinâmica criada em volta da viola campaniça que se inicia. Em que vamos para festivais fazer workshops de viola campaniça, começamos a desenvolver aulas do ensino da viola campaniça aqui na região, aulas privadas em nossas casas, em que tínhamos a dificuldade de ter violas, passamos a ir buscar violas a Braga porque havia um construtor, havia e ainda existe o Domingos Martins Machado, em Tubosa, perto de Braga, o homem que fez o museu dos cordofones, das violas tradicionais portuguesas e onde a partir do livro dos cordofones portugueses de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira ele tomou conhecimento da viola campaniça e começou a construir. Nós tomámos conhecimento que esse senhor construía violas campaniças e comprámos algumas. Algumas aproveitámos porque a sonoridade é muito genuína portanto tínhamos uma grande dificuldade em ter violas. Então era difícil ter alunos se não tínhamos violas para as tocar.

 

 

AMMA: O Pedro também é construtor deste instrumento musical. Aprendeu essa arte com estes mestres ou teve outra escola?

 

PM: Nessa altura fomos à procura de violas antigas que pudessem existir na região com estes dois mestres, que eles sabiam que no lugar X havia uma viola e a família é esta e aquela e encontrámos várias violas antigas, completamente degradadas e tentámos restaurar e é aí que aparece um outro senhor que é Amílcar Silva que era um homem também com muita habilidade nas mãos e trabalhava a madeira e entretanto ele reformou-se e por sua autoria e com a influência da Rádio, ele ouvia muito a Rádio, tinha memória que o pai dele tinha uma viola, tocava e acompanhava os cantos de despique e ele decidiu fazer uma viola. E a partir daí em conjunto com o mestre Manuel Bento, com o mestre Francisco António e um outro senhor que despertou curiosidade na aprendizagem do toque chamado António Bernardo. E com este grupo de pessoas conseguem-se juntar e reunir um conjunto de violas antigas e a partir daí começam a ser construídas violas aqui na região. O senhor Amílcar com mais disponibilidade, com melhores condições começa a construir e eu a par de toda essa gente também comecei a desenvolver a construção, a tirar experiências pelas violas antigas, a tirar experiências pelo conhecimento dos mestres e em conjunto a coisa ia acontecendo e surgiram uma série de violas embora não tão perfeitas como nós desejaríamos, não tão próximas da tradição. Mais tarde é que conseguimos chegar áquilo que era na verdade a viola antiga, ou as novas violas próximas das violas antigas em termos de madeiras, de qualidade porque durante muito tempo o Sr. Amílcar foi fazendo experiências, foi criando instrumentos até apurar. Depois essa parte, para nós, deixou de ser uma preocupação, porque a dada altura nós divulgámos esta actividade e outros violeiros, construtores de instrumentos de corda em Portugal, começam a vir ter connosco e a querer saber como fazer a viola campaniça e com base naquilo que era o nosso estudo dos moldes e do instrumento em si, instrumentos antigos, uma série de construtores em Portugal passaram a construir e hoje é uma realidade que para nós já não nos preocupa porque temos provavelmente uma dezena de violeiros que estão a construir a viola campaniça de uma grande qualidade, instrumentos, alguns deles muito próximos do que é a viola antiga e a construção deixou de ter essa preocupação que na altura tínhamos e agora há violas por todo o lado. Hoje não tenho noção da quantidade de pessoas que tocam a viola campaniça. Se em 2009 fizemos o encontro de tocadores de viola campaniça  e conseguimos reunir, salvo erro, 32 tocadores de viola campaniça da região e não só. Nessa altura em 2009, relativamente há pouco tempo, conseguia-se saber que existiam 32 tocadores. Quando eu comecei a tocar no início dos anos 90 havia estes dois, havia mais um velhote ou outro que já não tocavam, mas eram tocadores porque ainda eram vivos, e foram surgindo todos esses. Hoje não sei precisar quantos são porque muitos desses começaram a ensinar, tantos outros começaram a tocar e a explorar o instrumento, músicos de outras vertentes culturais, e a viola campaniça na técnica tradicional que acaba por oferecer a possibilidade de cada um explorar os seus conhecimentos, explorar o instrumento e às tantas, hoje a viola campaniça é um instrumento que está a ser bastante tocado, aquilo que poderá estar em extinção ou aquilo que poderá precisar de se fazer algo mais para que não se perca, é a técnica tradicional. Quer queiramos, quer não, este é um instrumento que para ele ter aquelas características, aquela sonoridade que tem, aquele tipo de timbrado que o instrumento tem, aquele dedilhado, é preciso que respeitar uma série de questões quer desde a construção do instrumento, as próprias madeiras, o formato do instrumento enquanto uma caixa de ressonância, os bojos a cintura, o comprimento da corda vibrante, à escala, todas essas características têm que se manter para que se possa dizer que na verdade este instrumento que eu fiz, é uma viola campaniça.

 

AMMA: Como é a construção dela? Que aspectos técnicos mais relevantes tem de diferença em relação à guitarra clássica?

 

PM: Bem, é um cordofone, é uma viola, tem uma caixa de ressonância, tem uma escala, um braço, uma cabeça, tudo isso são semelhanças. Agora a campaniça difere no sentido que é um instrumento mais pequeno, um instrumento com os bojos mais acentuados, mais redondos, a cintura muito apertada e que obedece a uma dimensão padrão entre os dois bojos, o bojo superior e o bojo inferior e a cintura, que é o que divide os dois instrumentos. Então em termos estéticos percebemos que é completamente diferente. É um instrumento basicamente em formato de oito. A guitarra já é mais um formato de pera, um formato em que a cintura é larga. O mestre Manuel Bento até dizia que na verdade a viola campaniça, quem a criou deve de se ter inspirado numa menina delicada, de cintura delicada, porque ela é toda muito feminina. E depois tem a escala rasa que é nivelada com o tampo da caixa, a guitarra clássica,  o violão e a viola de fado são de escala sobreposta e a campaniça é de cordas duplas, cordas de aço, a guitarra na maioria dos casos são de nylon mas também  existe de 12 cordas, mas a campaniça tem estas características.

 

AMMA: Quando diz cordas duplas, significa que a mesma corda tem o mesmo afinamento? Com 10 cordas temos 5 afinamentos?

 

PM: São duas cordas que funcionam em ouriço, temos 5 afinações com 5 tons diferentes com 10 cordas. Elas funcionam duas a duas sendo que os bordões têm uma corda em aço, o par do bordão é uma corda em aço, afinada uma oitava acima assim como o último bordão, o mais grave, tem uma corda em latão também afinada uma oitava acima.

 

AMMA: Do género das guitarras country americanas com corda dupla?

 

PM: Sim, género das guitarras country americanas, género da guitarra portuguesa, da viola caipira e de tantas outras violas tradicionais que têm cordas duplas e que os bordões são sempre acompanhadas por uma corda em aço que afina uma oitava acima.

 

AMMA: Há uma grande procura pela viola campaniça por parte de estrangeiros? Ou seja de Portugal já disse que sim, mas do estrangeiro vêm ter convosco para fazer encomendas?

 

PM: Sim há muita gente a procurar a viola campaniça por todo o país e por todo o mundo quase a bem dizer. Se por acaso pensarmos que por exemplo no Brasil a viola campaniça teve um grande destaque por um trabalho que eu desenvolvi com uma parceria com um músico brasileiro que é o Chico Lobo, e que com o nosso encontro de violas de arame e a mostra internacional de violas de arame que acontece no Brasil, temos dado destaque ao instrumento e a viola campaniça. Segundo dizem as fábricas de construção de instrumentos e os violeiros, é das violas que mais procura têm, e eu também tenho essa noção porque muitas pessoas vêm ter comigo para comprar violas, eu também vou fazendo algumas inclusive com esta questão da pandemia voltei a trabalhar na construção, estou juntamente com o Sr. Daniel Luz que é outro violeiro que surge aqui na região em S. Teotónio, o Sr. Daniel Luz que começa também a construir cordofones e a dedicar-se à viola campaniça. Os dois estamos a leccionar uma formação de construção no Centro de Valorização da Viola Campaniça e do Cante de Improviso em S. Martinho das Amoreiras, que é uma escola, é um espaço cultural dedicado a esta arte da viola campaniça: do cantar, a viola campaniça, do cante alentejano e o cante de improviso que é uma forma de cantar que a viola campaniça sempre acompanhou. Esse Centro de Valorização do qual eu também sou coordenador e neste momento estamos a dar formação da construção nesse espaço.

 

AMMA: Então a procura é grande?

 

PM: Muito, tem muita procura o instrumento para se tocar, o instrumento que muitas das pessoas da região e nem só, procuram o instrumento porque é um instrumento bonito e fazem questão de ter um instrumento destes. O que é certo é que a viola campaniça e os cordofones portugueses nestes últimos 10 anos têm-se afirmado bastante. Isso é muito bom para nós e é muito bom para a nossa cultura, porque não podemos esquecer que Portugal é um país rico em cordofones. Simplesmente os nossos governantes, dirigentes culturais, não os valorizam. Infelizmente é assim.

 

AMMA: Ou seja, não têm o seu devido reconhecimento?

 

PM:  Não tem o devido reconhecimento seja ele qual for o instrumento tradicional, seja ela qual for a cultura que se faça não tem o devido reconhecimento infelizmente.

 

AMMA: Em média qual é o investimento que um aluno tem que fazer para começar as suas aulas?

 

PM: Nós aqui no Centro de Valorização achamos que por bem deve ser uma oferta, que embora não tenha sido assim o meu início, mas achamos por bem que deve ser uma oferta e as aulas são gratuitas. Este Centro de Valorização que funciona a partir de um consórcio onde a Câmara Municipal de Odemira lançou o desafio à Associação para o Desenvolvimento de Amoreiras-Gare à Junta de Freguesia de S. Martinho das Amoreiras, à Casa do Povo de S. Martinho das Amoreiras e disponibiliza estas aulas. À partida os instrumentos são emprestados, temos uma colecção de instrumentos que usamos para leccionar. Os alunos, alguns deles frequentam a formação de construção e começam por construir o seu primeiro instrumento. Assim como também há um espaço de tempo de aulas de experiência que os alunos precisam de ter. Porque um instrumento destes é um investimento que nem sempre é possível para as pessoas adquirirem um instrumento que depois acabam por não dar utilidade se não tiverem desempenho no toque do mesmo. Então há ali um espaço de tempo que a pessoa precisa de ter experiência para, e sim nós emprestamos o instrumento e a pessoa pode até levar para casa e  acabam na maioria sair tocando o instrumento e adquirindo o instrumento. O instrumento de iniciação é mais barato.

 

AMMA: Um instrumento fica para que valores?

 

PM: A relação qualidade /preço com os acessórios que possa ter, uma bolsa para transporte, afinador, poderá andar à volta dos 400€ que é um instrumento para iniciação já de qualidade. Embora depois a qualidade não tenha limites.

 

AMMA: Voltando um pouco atrás, diz que tem cada vez mais tocadores, mas tem no fundo algum receio que corra o risco de desaparecer ao longo das gerações ou acha que a continuidade que está a ser dada permite manter durante essas gerações?

 

PM: Nós estamos numa época em que está na moda que aquilo que é das tradições, principalmente aqui no Alentejo, a música da tradição, o cante e a viola campaniça, estão na moda. Agora o que está a acontecer que pode colocar em risco é esta necessidade e uma ambição desmedida de querer ser diferente. De querer fazer melhor e de competição. Que é aquilo que me preocupa é quando vejo os jovens a competir sabe-se lá com quem, mas em competição, porque sente-se isso, e tentar fazer diferente, a deturpar o que quer que seja o cante, a viola campaniça, a técnica de execução da viola campaniça. As formas que existem, as diferentes formas de colocação da voz no cante, por toda a região e a juventude está precisamente a deturpar tudo isto.

 

AMMA: Ou seja o risco é a deturpação. Não o número de pessoas a interpretar mas sim a deturpação da originalidade?

 

PM: Sabemos que quantidade não significa qualidade, seja naquilo que for. Seja enquanto cantadores seja enquanto tocadores de viola campaniça e hoje, provavelmente contra mim falo pois no início de toda esta situação quando começo a tocar a viola campaniça com os mestres, a nossa intensão era reunir quantos mais melhor. Interessados só que fosse para nós já era muito bom. Porque às tantas nós fomos criando aqui uma outra questão. Fomos educando o público para esta sonoridade. Porque muitas vezes eramos confrontados por músicos, por pessoas conhecedoras da música e de outros cordofones que nos diziam que na verdade o instrumento estava desafinado. “Mas como é que vocês conseguem tocar um instrumento desafinado?”, “Como é que é possível insistir numa coisa em que isso não funciona?”, eramos confrontados com este tipo de questões. Na verdade na região havia ainda memória e ainda estava lá no subconsciente das pessoas esta sonoridade. Tanto que a partir do momento que ela começa a ser tocada por toda a região, a região identifica-se com ela. As pessoas têm memória de ouvir falar de uma viola, e existem registos do século XIX e XVIII por aí, há registos quer em tablatura quer em áudio, quer em matérias de edição, há várias revistas que fazem referências à viola. Porque na verdade a viola do Alentejo passa a ser chamada de campaniça recentemente, com essa recolha dos cordofones, do livro dos cordofones portugueses, a partir daí é que o instrumento é chamado de campaniça, os mestres não a tratavam assim, tratavam-na por viola, não havia mais nenhuma, aquela era a viola. Aqui nesta região tinha estas características, se formos ver uma recolha do Giacometti, onde ele fala com um construtor que até é da freguesia de S. Martinho das Amoreiras, ele fala com o construtor e pergunta-lhe se esta é uma viola campaniça e ele diz que “é uma viola, é cá do campo, por isso é campaniça”. “É uma viola que é cá do campo” porque o nome campaniça deriva do campo e também de uma determinada região aqui do Baixo Alentejo que é região campaniça, assim como depois a outra região é a margem esquerda do rio Guadiana, a outra é a terra de barro, a outra é a Serra, o Alentejo divide-se aqui por estas designações e diferentes áreas quer da forma como é laborado geograficamente o território: mais plano, mais de encosta arraiana com Espanha e assim como a zona da serra e o tipo de terra, daí que é o barro, o campaniço, a serra, a margem esquerda e o litoral. Divide-se assim nestas designações a região. E às tantas o senhor responde que: “é uma viola, é cá do campo, sim também pode ser campaniça.” O Sr. Manuel Bento diz que o seu pai dele nunca tratou aquela viola por campaniça. Tratou-a sempre por viola.

 

AMMA: Então foi nessa altura com Michel Giacometti que começou a ser designada por campaniça?

 

PM: Provavelmente por Michel Giacometti, ou já haveria algum registo da viola por nome campaniça por exemplo por Armando Leça, que aparece uma pequena referência a esta viola de campaniça. Não sei precisar ao certo em que ano é que poderia ser, mas tudo o que há daí para trás, a referência feita e o nome dado ao instrumento do Alentejo é de viola. Somente viola

 

AMMA: Em 2006 começou a ensinar aos alunos do 1º Ciclo a música tradicional alentejana. Qual foi a reacção dessas crianças? Eles aderiram logo? Teve algum desafio interessante a ultrapassar?

 

PM: Sim, é porque na verdade nessa altura, há relativamente pouco tempo, era uma altura em aquilo que é nosso ninguém valorizava e em localidades que não havia movimentação cultural nenhuma, como por exemplo não havia grupos corais, não havia eventos que tivessem música local e de cultura local era bastante difícil e muitos dos meus alunos nessa altura desconheciam completamente o que era música local, música tradicional, porque a influência da televisão, a influência das rádios e a influência da Internet combatia cada vez mais este tipo de realidades culturais e os desafios que eu tive foram alguns, porque os meus alunos não tinham noção e aqueles que tinham viam-no como algo que era depreciativo, como por exemplo situações que durante muito tempo no Alentejo não era permitido cantar nas tabernas, houve uma altura que não era permitido cantar na rua até certa e determinada hora, não era permitido cantar nas tabernas depois das tantas horas. Mas há uma altura, que foi a última fase do cante antes da classificação da Unesco, há uma altura em que o cante é visto como algo depreciativo, algo que não é de interesse e não beneficia a uma casa de comércio alguém cantar dentro desse espaço, porque era considerado que estaria embriagado, alguém que não estaria no seu juízo perfeito. E sim, eu tinha muito essas situações de que por exemplo tenho ciente um aluno que me respondeu que na verdade “Ah o meu pai às vezes canta umas coisas mas é quando está bêbado”. Lá está “é quando bebe uns copinhos a mais e depois canta e não gosto muito quando ele faz isso.”

 

AMMA: Ou seja estava associado ao movimento mais das tabernas e vendas, como são conhecidas no Alentejo.

 

PM: Das tabernas, vendas e até mesmo nos cafés. Quando começam a deixar de existir tabernas e passam a existir cafés, que na verdade passou a ser um espaço mais moderno, um espaço mais cuidado em termos de aspecto, aí sim é que era mesmo proibido. O dono da casa expulsava, punha na rua qualquer pessoa que começasse a cantar.

 

AMMA: Também foi uma estratégia sua para que eles começassem logo de pequeninos ligados à música alentejana?

 

PM: Sim, eu como lhe disse, já cantava nos grupos corais, saio do grupo infantil para o grupo de adultos de homens, grupos com grande peso como por exemplo os Ganhões de Castro Verde, e começo a fundar grupos corais pelas aldeias aqui da região, vilas até aqui da região, formar novos grupos corais. Nesse ano de 2000, surgiram vinte e tantos novos grupos corais aqui na região. A faixa etária era alta, dos elementos destes grupos corais. E então a preocupação e a minha ideia passava por se nós já perdemos esta forma de ser e estar em casa com os nossos familiares, de fazer serão de contar histórias e ouvir histórias, de ouvir os nossos pais e os nossos avós, se já perdemos toda esta forma de estar e de viver, e então não há espaço e muito menos oportunidade para se aprender este tipo de história e de cantes e de violas e tradições. Então precisamos de fazer alguma coisa que é ir até onde estão os jovens e o 1º Ciclo nessa altura em 2006 começa com o programa de enriquecimento curricular que se chamadas as AEC’s em que tinha a expressão musical e nessa expressão musical surgiu a oportunidade, num encontro que tivemos em que falávamos sobre a música tradicional, falávamos sobre o que fazer para com esta questão da música tradicional não ter interesse pelos mais novos, eu fui convidado e apresentei essa minha ideia, o meu projecto que devíamos ir até às escolas, e estava presente uma vereadora da Câmara Municipal de Almodôvar que tinha um horário por completar, por entregar de música, lançou-me o desafio de eu leccionar naquele horário dos alunos do concelho. Para mim foi uma excelente oportunidade.

 

AMMA: Foi o ponto de partida?

 

PM: Foi o ponto de partida para mim, para o cante alentejano, para a região e para uma série de pessoas que a partir daí durante alguns anos, 5 a 6 anos depois começam a surgir outros cantadores, pessoas novas também ligadas ao cante, a poder e a querer dinamizar esta actividade fora de portas, noutros agrupamentos. Portanto o ponto de partida é em 2006 em Almodôvar, comigo no 1º Ciclo, depois eu vou iniciar essas aulas também em Serpa, o projecto ganhou uma dimensão enorme e outros municípios passaram a oferecer aos seus agrupamentos de escolas o cante, hoje também a viola campaniça no concelho de Odemira. Embora também eu como a minha intensão era puder estar com os mais novos e ter a oportunidade de falar para eles do cante e das tradições. Então não podia não levar a viola campaniça e de certa forma fui abordando duas temáticas que eram fundamentais. Que a viola campaniça ligada ao cante torna-o mais apetecível, torna-o mais encantador assim dizendo.

 

AMMA: Ter sempre as duas artes associadas?

 

PM: Sempre, porque elas sempre estiveram associadas. Elas só não estavam associadas e isso é uma teoria, que na verdade não é só teoria é uma realidade, que ao longo dos anos os defensores da tradição, os tradicionalistas foram entendendo e aceitando, porque a viola sempre existiu no Alentejo, e era de certa forma o instrumento que acompanhava nos bailes e assim como mais tarde surgiu as harmónicas, concertinas e por aí fora. Então durante uma série de tempo o cante teve o seu grande palco nos trabalhos no campo. Se por acaso alguém levasse uma viola campaniça para trabalhar no campo, num tempo da ditadura quem era o patrão que aceitava uma coisas dessas? “Você vem para aqui para trabalhar ou vem para aqui para tocar viola?” O cante, as gargantas não influenciavam, mas mesmo assim há histórias de cantadores que dizem que quando andavam a trabalhar, se alguém começasse a cantar o manager pedia logo para cantar uma moda mais rápida para ver se o trabalho avançava mais depressa. Ainda assim o ritmo da melodia tinha influência e mexia com o manager lá do trabalho. Então a campaniça nunca é levada para o trabalho, é um instrumento que tocava nas tabernas, as pessoas ao serão sim cantavam acompanhadas à viola campaniça, nos lugares em que a campaniça ainda existia acompanhava os cantares ao despique, é claro que sabemos que a viola entra em desuso ainda lá para trás nos inícios do século XIX, ela perde-se a partir daí, porque deixa de haver aqueles nómadas que eram trovadoristas, homens trovadores que andavam de feira em feira vendendo poesia,  que também eram poetas, levando novidades, notícias, levavam histórias de terra para terra, que levavam modas e composições deles provavelmente, que as pessoas depois ouviam durante a Feira de Castro que acontecia uma semana inteira de feira, as pessoas vinham para a feira e ouviam homem afamados que vinham diziam poesia tinham o dom da palavra e que usavam a palavra em rima para seduzir e cativar as pessoas. Contavam histórias de acontecimentos que houve em tal sítio e ficava tudo surpreendido e hoje há muita gente ainda a contar histórias que ouviram em feiras, modas que ouviram nos mercados, porque era assim que acontecia. Quando tudo isso se perde. A campaniça, a viola que andava com essa gente também se perde, também desaparece. Tanto que o último construtor que há registo aqui na região, foi esse que o Giacometti recolhe mas esse senhor já nada tinha que fazer. Porque ele a par da construção da viola campaniça também era abegão, também era homem que trabalhava as madeiras que fazia utensílios para as casas das pessoas, o mobiliário da altura e algumas peças ligadas à agricultura, como alfaias agrícolas e por aí fora e era o trabalho dele também. Ele mantinha uma coisa com a outra, que ele dizia que de vez em quando ele recebia uma ou outra para poder restaurar. De resto mais nada.

 

AMMA: Alguns desses seus alunos deram continuidade ao estilo musical tendo já grupos a dinamizá-la. Vocês continuam a trabalhar em conjunto ou eles estão a trabalhar totalmente autónomos?

 

PM: Às vezes a palavra trabalho pode levar aqui uma dimensão diferente da realidade. É que por muito que queiramos, ninguém consegue assumir esta actividade enquanto trabalho. Tenho alunos que foram meus alunos, já não o são hoje que cantam comigo em grupos corais adultos, que são grupos amadores. Depois outros alunos até que já estão a leccionar também cante nas escolas, já estão a ensinar noutros agrupamentos, assim como alunos de viola campaniça que tocaram comigo e que entretanto têm outros projectos deles musicais que fazem a vida deles, então desta nossa actividade há uma série de gente a integrar grupos corais jovens, que já são adolescentes, outros que já são adultos, que têm projectos criados e organizados por si e que têm uma vida bastante activa ligada a esta questão da música da tradição, que felizmente são agora o colher dos frutos das plantações que fizemos. Da semente que foi lançada, assim como também o público que nós conseguimos educar com esta nossa música. Por muito que queiramos a nossa intenção não é criar cantadores, com o projecto do cante nas escolas, é sensibilizar para com esta realidade. E é claro que depois de um grupo vasto de alunos, sim surgem alguns com muita qualidade, surgem alunos que acabam por se entusiasmar e dar continuidade a formar grupos, aprender a tocar a viola campaniça e fazer do instrumento um hobby que podem também ganhar a vida.

 

AMMA: Dos projectos que faz parte, a qual se dedica com mais tempo e empenho?

 

PM: Bem, eu dedico-me a todos os projectos que faço parte com algum tempo e muito empenho. Eu faço muita coisa ao mesmo tempo e acabo por deixar de igual modo essa divisão. Embora há outros que precisam mais da minha da minha dedicação que outros. Como por exemplo houve uma altura que o cante nas escolas mereceu muito o meu empenho, porque eu precisava de afirmar este projecto e que entretando foi-se afirmando e houve uma série de gente a juntar-se a ele e a coisa aconteceu. Noutra altura a viola campaniça precisava de ser tocada, precisava de se transmitir a arte e isso aconteceu. Entretanto agora dedico-me a conquistar o objectivo que qualquer um desses conquistou com o cante de improviso aqui na região, o despique acompanhado à viola campaniça. Também dedico-me com bastante empenho e que requer muito de nós o projecto do Centro de Valorização da Viola Campaniça porque através dele nós temos uma centena larga de alunos de várias faixas etárias “desde os 8 aos 80” e para nós é importante também motivar e estimular esta juventude para ter capacidade e aceitar que as diferentes faixas etárias possam estar juntas, envolver os mais velhos com os mais novos e vice-versa, porque são eles que são detentores e depois o mesmo projecto, que na verdade tudo isso é o meu projecto, mas o meu projecto a solo, aquilo que  neste momento pouco ou nada consigo fazer que são concertos em que subindo acima do palco conseguimos ganhar algum dinheiro, agora a carolice de andar com a viola às costas e estimulando este e o outro e motivando para que aconteça ninguém ganha dinheiro com isso na verdade. E às tantas para poder ter uma vida dedicada à cultura a 100% tem que haver alguma destas vertentes que nos dê sustentabilidade senão não conseguimos viver.

 

AMMA: No estrangeiro, como é que tem sido recebido? Há curiosidade por parte de espectadores que não tenham origem portuguesa?

 

PM: São quem conseguimos ter de maior curiosidade. São as pessoas que nos acarinham mais. Eu já fiz concertos no estrangeiro para comunidades portuguesas, já fiz concertos no estrangeiro para comunidades estrangeiras e sim chego à conclusão de que, sempre com bastante carinho pelos emigrantes portugueses e pelas comunidades portuguesas,  mas a capacidade de entendimento da cultura, o apreciar o nosso trabalho,  as comunidades estrangeiras são mais activas.

 

AMMA: Sobre o grupo internacional de tocadores de Violas de Arame, do qual faz parte, em que consistem as vossas actividades e quantas diversidades de instrumentos existem?

 

PM: Nós temos somente violas de arame. Embora depois as violas de arame elas dividem-se em várias. Viola campaniça, a beiroa das Beiras, a braguesa do Minho, a viola amarantina de Amarante, a viola dos Açores a viola da terra, Micaelense ou da Terceira; a viola de arame (é a única que mantém o nome), o rajão e o braguinha da Ilha da Madeira, o braguinha que é um cavaquinho mais pequenino,  e depois há as violas a caipira do Brasil, a viola fanangueira do Brasil, a sertaneja do Brasil e a rabeca brasileira que também faz parte desta nossa mostra deste nosso encontro de violas de arame. Embora depois há outras que nós no ano passado não fizemos o encontro por causa da pandemia, era para ter acontecido em Novembro de 2020, não aconteceu. Vai acontecer agora em Março a mostra internacional a partir do Brasil, a organização é no Brasil, a mostra vai ter três violas tradicionais portuguesas convidadas, e depois diferentes violeiros de viola brasileira.

 

AMMA: Têm tido muito intercâmbio entre vocês, desde espectáculos, gravação de discos? Chico Lobo com a sua viola caipira é um bom exemplo disso?

 

PM: Sim, desde 2006/2007 por aí, começa a parceria com o Chico Lobo onde resulta em 2007 um CD. A parceria, a junção das duas violas. Depois em 2010 um DVD em que mostra a cultura ligada a ambas as violas e depois tem um concerto nosso e depois temos feito várias coisas o encontro de violas de arame acontece o primeiro, que é no seguimento do encontro da viola campaniça com a caipira. A nossa intenção é estender e alargar este encontro e surge em 2009 o primeiro e daí para cá tem acontecido todos os anos uma ou duas vezes, em Portugal Continental, e até mesmo nos Açores. Há dois anos estivemos na Madeira, já tivemos três mostras no Brasil, e é a nossa intensão que a Norte de Portugal se possa abrir portas para este encontro, porque os encontros que têm acontecido em Portugal Continental têm sido somente a Sul, em que nós aqui com este movimento da viola campaniça tem dado destaque e tem sido parceiro com esta viola, embora a viola minhota, a viola braguesa e a viola amarantina também sejam parte integrante deste encontro mas o encontro ainda não aconteceu a norte do país, e nós gostaríamos muito que isso fosse acontecer. Que possa ser a organização que tem vindo até aqui, mas que se possa descentralizar e que quando ele se descentraliza o que acontece são as entidades locais que o financiam: municípios, associações e por aí fora… eu quero o encontro aqui na minha localidade então eu vou ter que procurar financiamento para ele ocorrer aqui. Estes encontros têm acontecido com financiamento dos municípios, como por exemplo aqui no Alentejo o encontro já aconteceu 7 ou 8 vezes com o apoio da Câmara Municipal de Castro Verde, com o apoio da Câmara Municipal de Odemira. São as Câmaras Municipais que pagam para este encontro acontecer. Não tivemos ainda um financiamento de mais entidade nenhuma. Nem de ministérios, nem da cultura nem de nada, nada… e na verdade nós fazemos cultura mas ninguém valoriza aquilo que nós fazemos.

 

AMMA: Quem tem tido mais interesse em apoiá-lo são os municípios?

 

PM: Estes municípios aqui do Alentejo, porque também têm alguma preocupação com a salvaguarda daquilo que é seu. Estes dois municípios quer Castro Verde quer Odemira têm interesse também na salvaguarda da viola campaniça, na promoção desta viola, na promoção destes cantares aqui da região, dos concelhos mais a Sul da região e são eles que investem para que isso aconteça. E dessa forma também o Centro de Valorização recebeu uma edição deste encontro de violas de arame e tem em projecto outra edição a de 2020 era para ter sido organizada pelo Centro de Valorização da Viola Campaniça. Não foi porque a pandemia não deixou. Este ano, a partir do Brasil, estamos a organizar a terceira mostra internacional, porquê? Conseguimos fazê-la porque é on-line. Estamos a organizar tudo isto e vai ser disponibilizado nas redes sociais, via Internet num site que está a ser elaborado para isso. Senão não conseguíamos fazer nada. E infelizmente ou felizmente que certos países têm despertado para apoiar a cultura mesmo que ela aconteça via on-line mas há essa preocupação, que as pessoas que fazem cultura, os músicos, os artistas, precisam de sobreviver. Principalmente dos que fazem cultura.

 

AMMA: Dos seus nove discos editados, qual foi o mais desafiante de compor?

 

PM: Estes dois últimos foram os mais desafiantes. Embora depois foi bastante motivante os discos com outras nacionalidades. Foi muito interessante essa parceria com o Brasil, muito interessante a parceria com o festival “Sete Sóis, Sete Luas”, na orquestra em que eu participo, onde eu entro e que origina um CD são de origem de Portugal, Espanha, Itália, Israel, Sudão e Croácia.

 

AMMA: Nestes tempos em que a cultura está mais parada devido ao Covid-19 conseguiu de alguma forma minimizar o impacto de estar fora dos palcos? Deu para arrumar ideias, fazer desenvolvimentos de projectos antigos que tivessem ficado em suspenso?

 

PM: Sim, sim. Temos aproveitado esta questão da pandemia para perceber que na verdade as coisas não são tão fáceis como pareciam e de certa forma agarrar projetos que estavam parados, desenvolver questões de composição de temas, fazer aqui uma reorganização do cancioneiro, naquele que é o meu cancioneiro, e aproveitar as novas tecnologias para fazer aulas on-line, entrar em contacto em conferência com colegas e  alunos para que possam de certa forma continuar a tocar, que não seja esta questão da pandemia um motivo de desmotivação.

 

AMMA: Relativo às aulas em tempos de pandemia, principalmente as crianças e os jovens estão preparados para ter aulas de música remotas? Como os seus alunos estão habituados a tê-lo em sala e estão eles em grupo também, presencialmente.

 

PM:Tem sido uma experiência que no início da pandemia não foi muito fácil porque o ambiente é outro, a distância da telecomunicação por vezes não funciona, não sei mas acredito que é preciso fazer um outro trabalho para preparar os alunos para este tipo de aulas, principalmente os alunos mais novos.

 

AMMA: Principalmente os do 1º Ciclo, das escolas?

 

PM: Sim, sim, as aulas acontecerem à distância como estavam a acontecer por exemplo aqui no concelho de Serpa, os alunos em ambiente de sala de aula e o professor entra via virtual, online, via videoconferência. Aí sim, os alunos estão ali no espaço e o professor não está, mas está em videoconferência. Os alunos, cada um em suas casas,  e é preciso fazer uma preparação para isso. Se for uma aula individual em que a aula é dada para um aluno somente, a aula funciona. Se for um grupo de alunos para a mesma aula, já não funciona. É preciso também fazer um trabalho apurado para que se consiga essa actividade on-line: a música, o som há aqui um delay que nem sempre funciona e por vezes depois desmotiva. Presencialmente o toque, agente coloca a mão e “faz assim”, “faz doutra forma”, e “vê aqui” e “estás a ver”… dificulta a observação do aluno, bem há uma série de coisas que é preciso estudar e preciso superar, tentar melhorar condições e vamos ver o que é que vai resultar. Só sei que para já tiro uma conclusão, uma série de grupos corais que estavam em actividade não voltarão a exercer funções. E isso é preocupante.

 

AMMA: Ou seja a pandemia já está a levar a esse ponto?

 

PM: A pandemia está a levar para que certos e determinados grupos corais que já funcionavam com alguma dificuldade provavelmente não vão voltar ao activo.

 

AMMA: Que desafios tem em mente para realizar após ser levantado o confinamento e que os artistas possam voltar aos palcos de uma forma mais ampla?

 

PM: Pois… eu não sei quando é que isso vai acontecer, era importante que fosse para já. Mas os desafios era para já tentar reduzir um pouco o número de pessoas em palco, por exemplo é uma preocupação que tenho tido, é tentar chegar com um trabalho novo, é tentar levar e esse é o maior desafio, levar a música que eu considero mais genuína aos palcos, porque até aqui havia muito entusiasmo por parte dos músicos e dos cantadores inovar. Fundir a música da tradição com a música mais erudita, com a música mais elaborada, com outros tipos de instrumentos e outros arranjos e eu estou a pensar fazer o contrário, é aproveitar toda esta motivação e entusiasmo e procura da música da tradição e o desafio é esse, levar a música como ela é na sua realidade cultural para os palcos. A viola campaniça a acompanhar o cante e ou cante por si propriamente dito. Porque se isso não acontecer, não é marcar a diferença, e eu se calhar estou a desvendar um segredo que poderia não o querer fazer. Vai marcar a diferença no sentido de que, até aqui a maioria das pessoas têm querido ser diferentes. Vou cantar acompanhado de um piano, vou cantar acompanhado de uma orquestra, vou fazer um arranjo para uma moda a solo e vou para a televisão. A minha preocupação é manter a origem. Manter a base que todas essas pessoas tiveram, mas que ignoram. Porque nós não devemos ignorar a base, nós não devemos nunca deixar de ter a fonte, porque se um dia a fonte secar, tudo o resto também não existe e a minha preocupação é precisamente essa. É continuar e levar para os grandes palcos, fazer ver que na verdade tem que ir para a televisão o que é o verdadeiro cante. Eu para ir para a televisão não tenho que fazer um arranjo, não tenho que criar uma orquestra para levar uma moda para a televisão. Eu tenho que ter a capacidade e de ser aceite na televisão com a moda como ela é, pura e dura. E só a partir dai a aceitação já não é a mesma. Mas a conquista maior é de conseguir conquistar público para nas grandes salas de espectáculos, saber querer e ir ouvir aquilo que é a música tradicional. Quando ela for bem feita e quando ela for cantada e apresentada com todas as regras que tem, ela tem tanta qualidade ou mais ainda que qualquer arranjo que possa ser feito.

 

AMMA: Como músico, que emoção sente num palco a dedilhar a sua viola ao peito e rodeado de vozes a entoar o cante?

 

PM: Bem, é uma emoção e é um entusiasmo, é um conquistar de objectivos, é uma série de sentimentos que se juntam que na verdade é ali que se percebe… como por exemplo eu levei os meus projectos a grandes salas como o CCB, como o Tivoli, como o Kennedy Center em Washington, como tantas outras salas enormes do país e nem só, no Rio de Janeiro e por aí fora. O facto de chegar a lugares deste género somente com uma viola campaniça a peito e fazer com que essa viola campaniça possa fazer o público vibrar, para nós é atingir uma conquista planeada lá muito atrás, um sonho tido lá muito atrás que é, se este instrumento se consigo estar a cantar esta realidade musical e cultural aqui, então eu estou a dar a conhecer ao mundo, porque qualquer uma dessas salas que recebeu a nossa música esgotou e quando uma sala esgota é na verdade existe algo que motiva as pessoas a ir e então o sentimento é de satisfação é de um orgulho enorme, não só por mim, mas por uma região uma recompensa aos meus mestres e uma satisfação enorme de conquistar público para aquilo que nós fizemos. É por isso mesmo que a minha intensão no futuro é precisamente continuar desta maneira. Mas sim nos mesmos passos culturais mas com a música e a cultura pura e dura.

 

AMMA: No final do dia o balanço destes desafios todos é positivo e vale a pena o trabalho? Sente que o seu esforço foi gratificante?

 

PM: Às vezes não. Às vezes fico a pensar se devo ou não continuar, porque muito que não queira, por muito que seja simples a nossa forma de estar, a minha maneira de estar e honesta, é importante sempre e é preciso o reconhecimento daquilo que se faz, e depois desmotiva quando nós queremos que se abram portas para espalhar aquilo que é nosso, e aqueles que deviam abrir portas, acabam por fechá-las. E perceber isso às vezes, chego ao fim do dia e apetece dizer assim: “amanhã já não faço isto”, “amanhã vou mudar de vida”, “amanhã vou fazer outra coisa”. Porque na verdade incomoda ver grupos corais com dificuldades, incomoda ver cantadores que estão cada um por si desmotivados com esta realidade, incomoda ver depois as redes sociais a vibrarem por uma deturpação do cante, as redes sociais a vibrarem por uma realidade que não é sua. E aquilo que está a acontecer hoje é deturpar o cante, deturpar a viola campaniça, não valorizar os mestres aqueles que são os detentores do saber, e pouco ou nada fazer para saber se estão ou não a funcionar os grupos corais. Então mais uma vez e uma vez mais percebo que na verdade a Internet ajudou o cante, a Internet ajudou a promoção e divulgação da nossa cultura e do cante, mas também tem o efeito perverso, em que aquilo que nós vimos na Internet não corresponde áquilo que é a realidade, e é “fogo de vista”, é simplesmente fantochada, não corresponde à realidade. E a maioria do que aparece aí e do que é dito nas redes sociais na televisão, nas rádios, na prática não é bem assim.

 

AMMA: Que progressão gostava ainda de ver na divulgação da viola campaniça? Mais alunos…

 

PM: Mais alunos, mais interesse no conhecimento daquilo que é culturalmente o instrumento,  menos ambição e egocentrismo por parte de toda esta movimentação que há para a viola campaniça e para o cante. Porque há aqui uma série de gente que só se sente bem, e só estão na viola campaniça porque querem ter protagonismo, porque usam a viola campaniça para poder ganhar dinheiro… então eu gostava ver muita gente a tocar a viola campaniça mas por paixão, por gosto aquela tradição e aquela arte, não com o objectivo de ser artista ter protagonismo e não com o objectivo de sim ganhar a vida a partir dali. É claro que é possível ganhar a vida tocando a viola campaniça porque os concertos são pagos, e quem faz concertos recebe por isso. Mas não devia de ser esse o objectivo que leva certas e determinadas pessoas a tocar a viola campaniça. Acho que devíamos respeitar mais a tradição e fazer tradição por gosto e paixão por ela e não por outro e qualquer tipo de interesse. Era isso que gostava de ver no futuro.

 

AMMA: O que gostava de dizer aos nossos leitores, aos que já conhecem o seu trabalho e aos que estão a conhecê-lo agora?

 

PM: Gostava de dizer que por vezes na verdade posso não ser bem entendido com a força das palavras, mas sou o mais sincero possível e dizer que para mim é a cultura que me move é as origens e a paixão que eu tenho por aquilo que é nosso que faz com que eu possa desde há uma série de anos dedicar a minha vida toda completamente à música da tradição e dizer que, sim a paixão por aquilo que é nosso,  eu primeiro aprendi a gostar daquilo que é meu e depois foi aprender a gostar daquilo que é dos outros.

 

Texto: Pedro MF Mestre
Fotos: André Roque

 

 

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terça-feira, 27 de julho de 2021 – 05:07:11

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