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Semana do asfalto

A culpa de uma semana desportiva atípica, sofrida e marcada por ingestão desbragada de sais de fruto, deve ser totalmente imputada aos calendários das provas orientistas, que andam um pouco desequilibrados De facto, fui obrigado a enveredar por ínvios caminhos, de forma a manter o “corpinho” minimamente saudável (exceptuando a parte gástrica) e os níveis de adrenalina a funcionar. E tudo porque não me “apeteceu” entrar numa expedição de mil e cem quilómetros, à região “hermana” de Alicante, onde se realizava um evento de Orientação, que pontuava também para o nosso campeonato (uma modalidade verdadeiramente ibérica).

Por vários motivos e mais um, não tenho conseguido coordenar as minhas disponibilidades com as últimas competições agendadas, sobrando como hipótese de treino, a participação em corridas de atletismo, na vertente dos percursos para a “terceira idade” (quem não tem cão, caça com gato).

Contudo, continuo a sofrer de um problema, nada condizente com a minha actividade física – a dolorosa falta de apetência para a corrida. Sei que devo correr, mas não gosto nem o sei fazer, se bem que no fundo, sinta uma pontinha de inveja de quem sabe. Portanto, sempre que me meto nas andanças do asfalto, tenho de arranjar uma motivação extra, porque na Orientação, basta-me um mapa na mão e prisma no horizonte, que até deixo de correr para voar.

Contrariando os meus princípios básicos de comodismo (arrastado pela minha mulher), vi-me envolvido numa curiosa “guerra de sexos”, com início junto ao farol de Leça e término no Parque Basílio Teles, fronteiro à autarquia matosinhense. Prova de cariz solidário para com a Liga Portuguesa Contra o Cancro (o que atenua a azia), onde não eram permitidas misturas de “marias” e “maneis”, desde a partida até ao final do primeiro quilómetro - a rival Corrida do Homem e da Mulher.

Desconheço a ideia que subjaz a esta “batalha” inócua, porque apesar de o número de camisolas branco e rosa ser superior, o comportamento do azul-escuro é simplesmente arrasador, o que não surpreende, pois a natureza é que ditou as leis (afinal quem é o sexo forte, hem?). Pff…coitaditas, quando a primeira cruzou a meta, já havia umas centenas de tipos a caminho de casa (e muitos mais ainda a bufar no alcatrão, hehe!).

Um percurso pretensamente de 7 km, mas que afinal nem atingiu os 5,5. Um desvio incompreensível, para uma Organização carregada de experiência, ou terá sido uma atitude expedita, para não afugentar os mais fervorosos do alcatrão? Ora, isto foi uma brincadeira de mau gosto, pois programei o físico, e sobretudo a mente, para uma determinada distância e quando dou por ela estou a esbarrar na meta. – “Qu´é isto? Já acabou?”. Por causa de um qualquer podómetro avariado, nem tive oportunidade de lançar o meu último quilómetro “demolidor”, hehe!

- “Ah! Então foi essa a razão, porque a tua mulher fez menos trinta segundos do que tu?”.

Xiu! Quem disse isso? O que aconteceu, é que ela, despachada, furou para as primeiras e mediáticas linhas de partida, eu, resignado, fui atirado para os confins da fila de quatro mil machos anónimos e meio adormecidos. Quando finalmente me livrei da confusão e pude começar a correr, ela com certeza já rolava nas imediações da ponte móvel (3 km, hehe!). Este pormenor relevante e desigual, aliado ao facto de ter conhecimento do encurtamento da distância e não me informar (batota feminista), não são justificações suficientes para aquela mísera trintena de segundos de diferença? (e doía-me um calo!)

No confronto particular do “berdadeiro” casal, ressalta que eu me limitei a seguir de longe o esvoaçar do seu “rabo-de-cavalo”, sem forçar o ritmo, num “jogging” sereno de veterano, que resultou numa média de 5,43 ao quilómetro. Enquanto ela, partiu à desfilada, como se não houvesse amanhã, apenas para ter o prazer de me receber de braços abertos na meta. Claro que lhe perdoei a ousadia de me ter abandonado (o que eu não faço por um abraço).

Oito dias depois, ainda de psique combalida e em tratamento intensivo de “kompensans”, não vi outro remédio senão voltar ao alcatrão, para participar nos concorridos 6 km, que integravam o programa da Meia Maratona Sportzone, numa tentativa sub-reptícia de repor a ordem lá em casa.

Se não fosse a terceira vez que corria esta prova, teria sido vítima de novo equívoco, porquanto a distância correcta é de cerca de seis mil e novecentos metros e não os números redondos anunciados. Enfim, falta de rigor sem qualquer importância, para uma iniciativa onde predominam milhares de despreocupados caminheiros (eles querem lá saber dos metros que medeiam entre o Freixo e o Cálem, “a t-shirt já cá canta”).

O meu objectivo baseava-se em efectuar o treino normal de desentorpecimento dominical, aproveitando para auxiliar mais uma causa humanitária (Fundação Vítor Baía), viver a festa das grandes corridas de massas (mais de 10.000 “laranjas”), observar de perto uns africanos voadores e remover o sapo que a minha mulher me tinha entalado (glup! Trinta segundos?).

À força de braços e muito “sex-appeal”, conseguimos uma posição confortável na partida, para evitar a avalanche da maralha que apenas vai passear e dar à língua, mas mesmo assim, o arranque não foi pacífico. Após alguns empurrões, calcadelas, “se faz favores” e “sses…”, engatei o meu passo, mas no meio de tanta balbúrdia, percebi que me faltava qualquer coisa…a minha mulher!

Mau…querem ver que ela deu “corda aos bitorinos” e já se pôs na alheta? Por via das dúvidas (não tornar a passar vergonhas), imprimi na fase inicial uma velocidade (5,35/km) acima do que pretendia e não pensei mais no assunto (no final a gente vê-se, mas que eu chegue primeiro, hehe!).

Não me sentia com a genica necessária para realizar o tempo de há três anos (35,44), mas propunha-me transpirar um bom bocado, não me preocupar com os “retrovisores”, desfrutar de um percurso agradável e esperar que o “meu rabo-de-cavalo” não me surgisse à frente. As minhas presunções não saíram furadas.

Suei que me fartei. Resisti em mirar a retaguarda. A paisagem ribeirinha fez esquecer o sacrifício. Infelizmente não fui além de 38,46. No entanto, repus a verdade dos factos. A minha educação, por muito esmerada que tenha sido, não prevê dar prioridade às senhoras em competições desportivas (nem ao burro em pé). Assim sendo, na chegada retribuí a gentileza e aguardei pela minha mulher 56 segundos, para lhe aplicar um sonoro “xoxo” de prémio (pode parecer pouco, mas foi do coração).
 

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020 – 02:33:06

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