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Os artistas

Se bem me recordo, nunca fui um aluno que se destacasse nas áreas artísticas do “desenho” ou dos “trabalhos manuais” (hoje com designação mais pomposa de “educação visual e tecnológica”). Sempre fui apelidado de um “mãos de aranha”, para tudo o que envolvesse alguma arte ou engenho manual (salvo óbvias excepções). Direi mais, estas disciplinas arrasavam-me invariavelmente a média anual.

Julgo que ainda sofro com esse trauma da juventude, onde as minhas capacidades desenhadoras não iam para além de traços abstractos, de difícil compreensão (inclusive para o próprio). Como tal, valorizo e admiro todo o indivíduo a quem o Criador dotou de um dom especial – transpor para o papel, de forma assertiva, tudo o que a sua vista possa albergar.

Dentro destas características de índole artística e porque os mapas sempre me fascinaram, englobo naturalmente, os nossos parceiros de modalidade, os geniais cartógrafos. Na minha modesta opinião, eles formam o grupo restrito dos artistas da Orientação (não menosprezando os ases da pastorícia).

Considero-os igualmente, os “anjos da guarda” dos orientistas. Sem o seu rigor, não seria possível aos “gueorgious” da nossa praça, cometerem feitos gloriosos, percorrendo montes e vales sem fim, em tempos irrisórios. No entanto, a mais ligeira imprecisão, já provoca grande alarido e serve de justificação para o atascanço de alguns segundos.

A todos os intervenientes no fenómeno orientista, se pode desculpar uma qualquer falha (mesmo que persigam o sul em vez do norte), mas aos homens que elaboram as obras-primas, que considero serem os nossos mapas de Orientação, não se lhes perdoa o mínimo descuido. – “No mapa aparece V1, mas a vegetação era sem dúvida um V2”. – “Contei dezoito pedras e no mapa só figuravam dezassete”. – “Faltavam no mínimo vinte centímetros ao perímetro da clareira”. – “Falésia? Uma pedrita que me dá pelo joelho?”

Confesso que também eu já teci comentários, sobre as minhas desavenças com a cartografia. São desabafos a quente, de quem não assume de imediato a responsabilidade pelos erros cometidos, mas que não passam de meras desculpas de mau pagador. Em abono da verdade, as opiniões de um “berdadeiro” orientista valem o que valem, mas não invalidam que continue com uma “pedra” de Ousilhão na sapatilha.

A dificuldade de interpretação de um pormenor cartográfico para uns, pode não significar qualquer problema para outros. Se há gente que prefere mapas carregados de informação, quase se tornando inteligíveis (mas correctos), existe uma facção que defende uma cartografia simplificada (nórdica de seu nome), que abrevia certos aspectos, conferindo uma leitura diferente e mais arejada. Gostos não se discutem e as filosofias também não. Embora seja preciso não esquecer, que existem normas internacionais que devem ser respeitadas e onde a objectividade é lei.

Lembro-me de um episódio passado num campeonato de distância média, algures nos montados alentejanos. Um dos nossos atletas de nomeada termina a prova num “tempo-canhão” e quando abordado pelo “speaker”, assume que não encontrou o ponto “x”, passando-o voluntariamente à frente, pois na sua óptica, o terreno não condizia com o mapa. Por ironia do destino, o meu percurso contemplava precisamente a mesma pernada, que realizei sem nenhum contratempo relevante, nem qualquer “ajuda externa”. Parece impossível, mas é verdade.

Claro, que para um especialista, quando os pormenores não conferem, salta-lhes rapidamente à vista, atrofiando-lhes a navegação, facto que não acontece a quem não domina essa arte, que vasculha até encontrar. Mas se a vegetação se tinha desenvolvido demasiado (nem reparei), o pedregulho continuava lá, assim como um muro a escassos metros. Se um elemento gerava confusão, os outros em redor confirmavam o local. O craque optou pelo “mp”, o “berdadeiro” decidiu gastar 6`38``. Tão simples quanto isto.

O aturado trabalho de campo é um aspecto, que tenho extrema dificuldade em imaginar. Depois do estudo da carta militar da área (quando existe), da análise das fotos aéreas e preparação do mapa base, sobrevém a tarefa mais complicada e minuciosa. Deslocação para o terreno e a exaustiva reprodução na carta, de todos os elementos característicos possíveis, tendo em conta uma determinada escala. Até me dá ouras pensar no assunto.

Se procedermos a um exercício prático, indo para o terreno com o mapa na mão, sem stress e observarmos a simbologia nele desenhados, comparando-a com o que efectivamente existe, não devemos deixar de valorizar essa tarefa. Podemos não descortinar no mapa as luras dos coelhos, a envergadura das árvores ou a composição mineral das “pedrolas”, mas reconheçamos, o essencial para uma orientação segura está representado.

- “Concordo. Mas não são pagos para isso?” – retruca o espírito de contradição. – “Era o que mais faltava! O verdadeiro artista deve ser remunerado.” – Digo eu!

Alguém consegue ter a mais pequena ideia, do número de horas despendidas na elaboração de um mapa, por muito simples que ele seja? Do tempo necessário a contar e medir pedras, a descobrir buracos ou a referenciar esporões, cotas e depressões? Do suor vertido, a desenhar belas e profundas reentrâncias? Dos longos períodos de isolamento a que se sujeitam? Os pobres devem dormir nas curvas de nível e a sua relação familiar, provavelmente não passará muito além do “skype”.

É bem possível, que as novas tecnologias disponíveis lhes forneçam um auxílio precioso, mas não dispensam um intenso trabalho de levantamento topográfico. O resultado do seu labor deve deixá-los orgulhosos, pois com maior ou menor subjectividade (densa ou simplificada), contabilizando um ou outro lapso, o que nos chega às mãos é sem dúvida uma obra de arte.

Como não me move mais nenhum objectivo, para além de dizer o que penso sobre o tema, não sinto qualquer constrangimento em afirmar, que eles são o elo mais forte de toda a cadeia orientista. A sua qualidade proporciona um toque de classe à Orientação nacional, sendo já reconhecida além fronteira. No entanto, podem estar cientes duma coisa, aqui no nosso burgo, continuarão a ser sempre os tipos das costas largas e o alvo de leviana intolerância.

A minha homenagem e gratidão (com desculpas por maus pensamentos incluídas), a todos os predestinados da cartografia, que colocam a sua veia artística à nossa disposição, permitindo-nos usufruir de momentos ímpares na vida, ao continuar na prática da mais apaixonante modalidade do planeta.
 

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020 – 00:52:21

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