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Ronda Minhota - (II) Longas, medos e estafetas

Já tenho participado em inúmeros campeonatos nacionais, inclusive estive presente num há quinze dias, mas estes Campeonatos de Distância Longa e Estafetas, que completavam a segunda parte da ronda minhota, buliram comigo de sobremaneira, gerando níveis de ansiedade que não consegui evitar, nem tão pouco controlar. Parecia um adolescente, que ia pela primeira vez a uma festa de amigos e não sabia como comportar-se.

Qual seria o motivo para tamanho desequilíbrio emocional? O nervoso miudinho de representar pela primeira vez o clube em nacionais estava ultrapassado, pois havia participado em Vinhais e Sesimbra. O facto de ir percorrer mais uma distância longa em mapas de eleição, também não era novidade (ainda tenho presente as odisseias de Terras de Bouro e da Cabreira).

Definitivamente só encontrava uma explicação. A grande pressão centrava-se na prova de estafetas. Seria o meu baptismo numa prova com características muito singulares, sobretudo para uma modalidade que assenta no desempenho individual. Sentir, que teria de prestar contas a dois colegas de equipa, se as coisas dessem para o torto, horrorizava-me e há noites que me atormentava o sono. E se eu atascasse? E se um “mp” surpresa aparecesse? Nem era bom pensar, que até me dava voltas ao estômago.

Demonstrando muita atenção e perspicácia, a equipa técnica apercebeu-se dos meus receios, teve pena de mim (e do clube) e afastou-me do meu escalão em jeito de protecção, arranjando-me um par de companheiros, com aspecto de pacíficos, que perdoariam qualquer deslize ao “berdadeiro” (pelo menos eu assim supunha). Infelizmente a solução encontrada, passou por me subir de escalão, o que me colocava em confronto com tipos com quase menos vinte anos. Mas do mal, o menos, não teríamos a principal responsabilidade, haveria uma equipa titular, nós apenas lhes resguardaríamos as costas, caso algum se portasse indevidamente (ai deles!).

A minha obsessão com a estafeta é de tal calibre, que ainda nem abordei a etapa do Campeonato Nacional de Distância Longa, que decorreu um dia antes, no mapa de Miranda, cartografado especialmente para esta ocasião.

Se tinha considerado um luxo o mapa da ronda inicial, este não ficou nada atrás. Felizmente que a minha opinião sobre os mapas não é indexada aos meus desempenhos – a páginas tantas não haveria um único mapa de qualidade. Neste particular também não comungo dos comentários dos verdadeiros orientistas, que quando se esticam ao comprido, a culpa é sempre dos cartógrafos ou dos traçadores (mapas de costas largas).

Claro, que as provas com distâncias mais extensas, em terrenos complicados, provocam-me um friozinho na espinha, pois a minha deficiente capacidade física sobressai pela negativa, sempre que me ensarilho nos verdes ou me atrofio nas “pedrolas”. Portanto, é sempre debaixo de algum temor que arranco para este género de percursos.

Prescreveram para o meu escalão 19 controlos, distribuídos por uns aceitáveis 7.500 metros, mas que um desnível acumulado de 300 me levava a desconfiar. Ainda não tinha aquecido e já ia constatando que as pernadas apresentavam várias opções de progressão. Pormenor que enriquece substancialmente os percursos, valoriza o trabalho do traçador, resultando numa carga de trabalhos para os atletas, que têm de parar para raciocinar (uma chatice!). Analisando os splits, é obvio que devo ter estacionado demasiado tempo para colocar a massa cinzenta a funcionar…e não só.

Posso não ter sido rigoroso a cem por cento nas opções escolhidas (nem tal me é exigido), mas nas pernadas que faziam a grande diferença, nomeadamente a que nos levava ao ponto 12 (“109”), numa viagem de 1,5 km em linha recta, julgo não ter errado no trajecto que optei. Foram 2,5 km bem esforçados e atinados (imaginem a divergência para a “red-line”), com passagem por um ponto de água estratégico (ainda vou ficar abstémio), em que a táctica se baseava na corrida desenfreada, onde eu perdi pouco tempo para os melhores. Ora, conhecendo o meu andamento pachorrento, está evidente que acertei na “mouche”.

Esfalfei-me quanto pude, não cometi asneiras relevantes (caso para levantar as mãos ao céu), alcancei até uma pontuação interessante, no entanto, este comportamento equilibrado não teve qualquer reflexo classificativo, pois acabei numa posição incómoda, bem pior que na média, onde efectuei uma série de disparates.

No final, sentia-me satisfeito com a minha prestação, só lamentando que o físico não correspondesse ao pretendido (e que a minha mulher tivesse subido a um pódio colectivo, hehe!). Só como exemplo, em três pernadas médias (600/800 mts), em que progredi sem hesitações, levei uma remessa de mais de uma dúzia de minutos para a maioria. Perante realidade tão objectiva, que mais pode fazer o “berdadeiro”? Duvidar do BI dos companheiros? Ou do meu?

Depois de cumprida a primeira missão, dei início ao período de concentração para a “terrível” estafeta, mas esqueci-me de acender uma velinha à Nossa Sra. dos Orientistas, para que ela me ajudasse a realizar uma prova, no mínimo idêntica à longa. Como sou um rapaz de fé, acredito que este lapso me foi fatal.

Mais uma noite mal dormida (com pesadelos de passagens de testemunho incorrectas), o cabedal a ressentir-se de três dias de provas, psique a sofrer de instabilidade, o pequeno almoço a não digerir e o ambiente da estafeta a fervilhar. Para além de nunca ter participado, também nunca havia assistido a uma prova destas. Tudo era novidade para mim. Até o ritual de preparação das partidas envolve uma atmosfera especial, que me deixou num compreensível stress de maçarico.

Ao ser o primeiro a partir, para os 4.000 metros e 15 controlos que me foram atribuídos, fiquei com uma preocupação extra – terminar antes da hora limite da partida em massa – objectivo que a não ser alcançado, seria frustrante para mim e penalizaria a equipa. Apesar do terreno ser contíguo ao da longa, o desnível revelou-se menos pronunciado, resultando num mapa propício a uma estafeta rápida e segura e esses pormenores não se coadunam com as qualidades intrínsecas do “berdadeiro” – lento e titubeante.

Contrariando a minha natureza, saí demasiado rápido (sendo uma partida em massa, evitava ser atropelado), entrei mal no mapa e a depressão do “121” demorou a aparecer. De imediato fiquei num comboio de retardatários, mas fruto de uma mão cheia de pernadas mais conseguidas, recuperei algum moral e fui apanhando vários atletas (não esquecer que os percursos eram similares), chegando ao ponto 7 com alguma tranquilidade.

O trajecto seguinte, obrigava a uma navegação concisa pelo meio de verdes, ponteados de imensos trilhos ladeados de muros, contudo aconteceu precisamente o contrário, com confusões na observação e azimutes, provocando-me uma confrangedora pernada, derretendo mais de sete minutos para picar o penedo do “129”.

Entretanto, encontro um colega de clube desorientado, forneço-lhe uma breve dica e sou contagiado pelo seu desnorte. Inexplicavelmente, interiorizo que me dirijo para o ponto de espectadores e quando estou a escassos metros de o picar, ao analisar a opção para o ponto seguinte, reparo in extremis que não tinha controlado a baliza anterior, numa confluência de caminhos (o ponto mais fácil dos 4 Dias do Minho).

Nem dava para acreditar – “hoje não, não numa prova de estafetas”. Onde estava o meu Santo Padroeiro? A passar pelas brasas? – “Vá lá que não te deixou fazer mp, seu cabeça ôca”.

Momentaneamente assolou-me uma perturbação (provocada pelo vexame, só pode, toda a gente notou a marcha-atrás), que me bloqueou por completo o raciocínio, ao ponto de nem ter conseguido acertar à primeira no caminho de acesso ao simplicíssimo “120” (senilidade precoce?).

Arreliado, envergonhado, frustrado, quase deprimido, não era necessariamente o estado de espírito conveniente, que me ajudasse a despachar os derradeiros cinco pontos (mais um trio de “pedrolas”). Em desespero e fazendo das tripas coração, ainda fui buscar uns pingos de força anímica (sabe-se lá aonde), de modo a que me permitisse enviar para a prova o colega seguinte, antes da desmotivante partida ao molho.

Tanto stress, tantos medos, tanta preocupação bacoca e afinal não doeu nada. Cometi as mesmas asneiras de sempre, senti as deficiências do costume. Seja na média, longa ou estafeta, a “istória” repete-se e continua, os cenários é que vão alterando.

 

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segunda-feira, 30 de novembro de 2020 – 01:48:31

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