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(II) - Excessos de velocidade

Está tudo louco! Então estes forasteiros desconhecem que não podem andar em excesso de velocidade, em pleno centro histórico de Leiria? D. Diniz teria dado voltas na tumba, se assistisse à maciça invasão do seu castelo, por vikings, saxões, cossacos e uma famigerada plebe nacional, liderada pelo Duque de Barcelos “D. Quim de Souza”, que entravam e saíam do seu reduto, quase no tempo de um suspiro. Ora estas deslocações de ar, até podem ter alguma influência na erosão das muralhas, não estão de acordo?

Os milhares de atletas que arribaram a Leiria, para a qualificação da prova de sprint, “iam num pé e vinham no outro”, tal os tempos vertiginosos que a maioria conseguiu, para percorrer o castelo e as vielas estreitas e íngremes que o circundam. Convém não esquecer que estamos a falar de participantes, cujas idades medeiam entre os 35 e 94 anos! Perante tamanha concentração de avozinhos (só octogenários eram para cima de setenta), mentalizei-me que ainda posso arrastar-me por aqui uns cinquenta anos…ou mais, hehe.

A zona envolvente ao estádio leiriense foi transformada numa espectacular arena, onde havia de tudo um pouco. Instalou-se uma autêntica feira, onde não faltava rigorosamente nada, para aperaltar um orientista: bússolas de Moscovo, equipamentos da Suécia, sapatilhas da Grã-Bretanha e um variado “merchandising” da Organização (com um “Porto” excelente para gáudio da malta de Leste).

Torna-se quase indescritível o ambiente que se viveu nesta pequena metrópole. Uma miscelânea de cores, onde sobressaíam os vistosos trajes desportivos e as diversas bandeiras nacionais, os mais diferentes idiomas (a língua oficial era o “orientelês”), mas tudo sob o denominador comum: a paixão pela Orientação.

Um “amor” tão fiel, que motivou umas dezenas de concorrentes a deslocarem-se dos antípodas. É verdade, as comitivas australiana e neozelandesa trouxeram um cunho especial à competição, mas foram os efusivos brasileiros que rivalizavam com os extrovertidos espanhóis, quem mais momentos de alegria proporcionavam, fazendo contraponto aos silenciosos e sempre gentis japoneses que primavam pela sobriedade. No entanto, as grandes delegações provinham da Escandinávia (cerca de 1.800), com atletas que ultrapassaram mais de metade dos inscritos, que vieram para competir e…vencer. Por aquelas paragens, esta modalidade é considerada uma religião.

Com todo este fervilhar a girar à minha volta, sentia-me de tal forma excitado, quase me esquecendo que estava ali também para participar. Às 9:22 seria a minha hora para a pré-partida, que me levaria a subir uns 400 metros, para aí sim, quinze minutos depois, dar início ao meu primeiro sprint, e se ele teria de ser rápido! Força nas “canetas” e juízo nas “vistinhas” – aconselhou a minha mulher (ela sabe quem tem).

O problema nestas provas, é que a celeridade tem de ser fundamental, tanto a pensar como a agir. E aqui é “que a porca torce o rabo”, pois se corro demais, passo as vielas e lá se vão os pontos, se me desloco com mais cuidado, aparecem os pontos e penalizo no cronómetro. Tive de encontrar um meio-termo, para não sair muito maltratado do meu baptismo num mundial.

Afinal que tinha o “espécie” a perder? Resolvi imitar os infractores de velocidade, correr o mais que pudesse e a cabeça que acompanhasse o ritmo. A primeira pernada era das mais longas, cerca de 400 metros de descida acentuada, quase até ao centro da cidade. Enorme confusão de ruas estreitas, com um esquerda-direita e direita-esquerda, que continuou nos trajectos seguintes. A concentração revelou-se fundamental, assim como descortinar correctamente no mapa todos os becos e vielinhas. Logo no segundo percurso, errei na aritmética, contei mal as ruas e zás…atascanço de dois minutos. Fiquei cá com uma raiva, que só não espumei porque tenho as vacinas em dia (hehe). Com maior ou menor azia, consegui ultrapassar essa contrariedade, o que deu para confirmar que os pontos estavam todos “lá”.

Ainda fui posto à prova, em nova pernada a roçar o meio quilómetro (a oitava), que tinha o óbice de nos obrigar a subir até ao início das muralhas, mas os meus níveis de sofrimento responderam em conformidade (trepando…gemendo e suando). O regresso ao centro, com mais sete pontos para completar os 2.100 metros, foi realizado em pouco mais de sete minutos (a descer todos os santos ajudam), para um registo de 23:42!

O “espécie de orientista” estreava-se num mundial, com um tempo, que não sendo famoso, não me deixava envergonhado, pois contra factos não há argumentos. Provavelmente, se tivesse efectuado uma prova limpa (dizem ser uma utopia), poderia baixar, no máximo uns três minutos, o que continuaria a ser um fraco resultado, quando comparado com os 13 minutos dos primeiros. Claro que os “bólides” nórdicos não respeitaram os limites de velocidade, enquanto eu, num modesto “piaggio”, tentei civicamente não infringir a lei. 

Periodicidade Diária

domingo, 21 de julho de 2019 – 14:57:08

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