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Pelo Norte Alentejano - (I) Aventureiro duma figa

Uma vez mais orientei o “tomtom” para terras de além Tejo, assestando as coordenadas para a histórica vila de Alter do Chão, para dar cumprimento à terceira edição do Norte Alentejano O`Meeting. Mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo, não me canso de afirmar, que estas são as viagens que me dão maior prazer efectuar. De tal modo tenho um fraquinho especial por aquelas paragens, que até esqueço o “sacrifício” das centenas de quilómetros que sou obrigado a percorrer para poder “picar o ponto” (pernada longa mas de agradável progressão). Às tantas tenho uma costela alentejana e ainda vou ser o último a saber.

O arranque do evento seria nos terrenos da Herdade da Lameira, um verdadeiro oásis nas cercanias de Alter. Ora, perante denominação tão sugestiva e com tempo previsivelmente chuvoso, imaginei que a grande contrariedade deste dia, deveria ser os montes de lama, daquela que se pega até aos cabelos. Mas não foi bem assim, na verdade a lama atacou a comitiva, só que no local mais improvável – a arena. Aqui, junto ao Hotel Rural, efectivamente a herdade fez jus ao nome, oferecendo-nos um lamaçal completo. Na zona de competição, nem por isso, os obstáculos foram de natureza diferente, a proporcionar extraordinárias progressões, ao melhor estilo de provas de aventura (no que à prestação do “espécie” diz respeito, `tá-se mesmo a ver, não é? hehe).

Catorze controlos dispersos por 3.600 metros, subindo e descendo (e de que maneira!) colinas carregadas de…imaginem…pois é…das mais carrancudas e altaneiras “pedrolas” que o Alentejo tem para apresentar, contrapondo aqui e ali com a árvore tradicional da região – o belo do sobreiro – só faltando para completar o quadro, o anafado porco preto (acabei por apanhá-lo à mesa do “Páteo Real”, bem feita!).

Para mim continua a ser um enigma, a forma como a malta dos Quatro Caminhos consegue desencantar cenários tão espantosos e soberbos para a prática da Orientação. As partidas e chegadas encontravam-se localizadas no limite de duas reentrâncias vizinhas, nas margens duma bucólica ribeira, que por força da chuvada nocturna, aumentou consideravelmente o seu caudal, obrigando à construção em contra-relógio duma ponte provisória, para permitir a sua travessia a diversos escalões (as imponderáveis “engenharias” das organizações).

É do conhecimento público, que qualquer reentrância, pelo seu declive, pode obrigar a uma desgastante ascensão, como pelo contrário, propiciar um vertiginoso “slalom”. Perante duas hipóteses tão redutoras, o traçador optou por nos fazer escalar a reentrância da partida, como forma de estimular o físico (um rapaz com bom coração) e para “variar”, nas chegadas convidou-nos a trepar novamente a encosta (sádicos!), porque isto não é para “meninos de leite”, se querem sprints, dediquem-se ao atletismo de pista. A coisa prometia.

Provavelmente, exagerei no tempo de contemplação da subida inicial para o triângulo, pois só esse facto pode explicar a fadiga que me atrofiou os primeiros andamentos. Ufa! Parecia que estava a terminar a prova. Mas não há melhor tónico do que encontrar um ponto, sem qualquer hesitação. Dá cá uma “pica”! Qual cansaço qual quê! Libertei-me das “frescuras” psíquicas e ataquei todo lampeiro, o segundo ponto.

Pronto! Euforia rima com miopia…e zás…embico pelo carreiro errado. Um ponto simples, apenas para ir tomando contacto com as “pedrolas”, mas que me fez desperdiçar uns bons três minutos. Os bombeiros de serviço bem se aperceberam da minha aflição, mas nem por isso mexeram uma palheira para me “socorrer”, limitaram-se a observar pachorrentamente o sufoco do “espécie”, como quem diz – “este tem a bússola desatinada” – para eles o meu esgar de desprezo, bah!

Arreliado com um começo algo desastroso, rumo ao ponto seguinte com poderosa determinação, perseguindo a curva de nível, a escassos metros da ribeira, por entre vegetação quase densa – afirmando quem viu – até árvores “derrubei” nessa empenhada progressão aventureira. Não queria acreditar que isso de facto tivesse acontecido, pois nem me lembrava do episódio, mas a testemunha é altamente credível. Ainda vou dar em espécie de lenhador ou ser acusado de exterminador de espécies protegidas (cá para nós, não passava dum arbusto…e podre, hehe).

Após três controlos mais calmos, desço para a linha de água, para atacar o ponto 7 e deparo com um sério problema – não trouxe o equipamento aquático! A célebre ribeira deslizava tumultuosa, com um caudal apreciável, não dando para fazer a mínima ideia da sua profundidade. Gritava o “Bininho” – “lembrem-se que há uma ponte a Este do mapa!” – aflito, ao perceber que o “espécie” estava a fazer contas de cabeça – “dá para atravessar ou necessito de escafandro?” – Se o meu objectivo estava mesmo no alto da escarpa da outra margem, porque carga de água iria fazer um desvio? Mas aquela mão cheia de metros a transpor, incutia algum respeito (podia ser atacado por algum achigã carnívoro).

Foram chegando outros concorrentes, mas todos equacionavam a melhor hipótese, de maneira a não serem obrigados a arrefecer os pés. O défice de coragem predominava (a prova de natação não constava do mapa). Subitamente, surge um companheiro dos mais antigos, em grande velocidade e sem qualquer hesitação, entra nas águas qual “zebro dos fuzos” e num ápice estava do outro lado. Nem pestanejei – “se ele passa, eu também passo” – afinal tínhamos envergadura idêntica e pelos vistos, a mesma falta de juízo. Tchap! Tchap! Tchap! Água pelo peitoral e no segundo seguinte já corria atrás do meu pontinho. - “Ah aventureiro duma figa!” – ouvi alguém exclamar, mas logo notei que tinha sido a minha chata “vozinha”, que tanto me desestabiliza como recrimina. Momento de pura adrenalina, que ficou registado para a posteridade pelo dedo ágil do “FotoBino”. - “E a água da ribeira estava fria?” – “Eh pá! Nem sei!”.

Com os níveis competitivos no máximo, a prova só podia sair beneficiada. Na verdade, sentia-me extremamente motivado, a aventura pelas comadres “pedrolas” estava a decorrer muito acima das minhas expectativas. Convenci-me que já nada me faria atrasar, apesar de transportar peso em excesso, pois fiquei completamente encharcado e as sapatilhas chiavam constantemente (assustando a passarada), com a água que levavam. Valeu-me a ajuda do tempo, com um belo solzinho retemperador.

Agora, a lírica ideia de não atrasar mais, é treta. Quase a picar o ponto 11, aparece-me pela frente uma das mais bem construídas vedações de que tenho memória. Não vislumbrava nenhuma passagem, os arames recentes estavam bem esticadinhos e afiados, a altura era considerável…que raio podia fazer? Andei demasiado tempo de um lado para o outro a tentar furar (como fera enjaulada), repentinamente deu-me uns azeites, ferveu-me o sangue de aventureiro…e decidido, atirei-me a “ela” sem medos.

Quando se reage com o coração, inevitavelmente sofrem-se dissabores. Fiquei completamente preso e pendurado no meio dos arames, nem para dentro nem para fora, qual espantalho ao vento. Ou rasgava-me todo ou tentava com cuidado, soltar-me da “aramadilha”. Fui salvo pelo aparecimento dum numeroso grupo de participantes, que foram surpreendidos com o mesmo problema. Uns breves instantes de solidariedade e todos ultrapassaram o farpado, não sem antes ter angariado mais umas “medalhas” no fatinho (não ganhando das outras…hehe).

O acerto dos últimos pontos, veio confirmar o meu secreto pressentimento – uma magnífica aventura do “espécie” – não fora o momentâneo distúrbio na zona “bombeiral” e quase estaria perante a “minha” prova perfeita, a tal que não existe. 

Periodicidade Diária

sábado, 15 de agosto de 2020 – 19:40:56

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