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É preciso ter galo

Para que não surjam dúvidas quanto à realidade das peripécias em que o “espécie” tem sido protagonista, quero informar os meus amigos, que noventa e nove por cento dos meus relatos (recentemente promovidos a crónicas, hehe), são fruto de litros de transpiração e apenas um por cento poderão ser rotulados de ficção (um pouco de cosmética para embelezar, não faz mal a ninguém).
 
Há criaturas que nasceram com o “traseiro virado para a lua” e ao longo da vida são bafejados por inúmeros prémios de jogos de fortuna ou azar. Outros há, que passam o tempo a maldizer a sua sorte e as injustiças do quotidiano, ao bom estilo “calimero”. Mas existe uma espécie de gente, que tem o condão de atrair ocorrências de tal maneira singulares, que à primeira vista até parecem mentira. – “Mas por que raio isso só lhe acontece a ele?”.
 
Se eu tivesse permanecido em casa, refastelado no sofá, a beber umas surbias e a ver a “bola”, em vez de me deslocar ao “Reino do Galo”, para participar no II Open dos Amigos da Montanha, não teria assunto para mais um episódio da espécie de orientista. As coisas só acontecem a quem lá anda e mais a mais, o meu destino está traçado na linha da vida da palma da mão (assim me confidenciou a trigueira cigana “Sarita”, há muitos anos atrás).
 
Já me tinham falado, que a mata de Palme nos arredores de Barcelos, não era propriamente terreno do agrado dos orientistas mais exigentes, mas eu, como vou conhecendo estas mentalidades, que se queixam por “dá cá aquela palha”, não dei grande importância ao facto – “mas devias ter dado!”
 
Na verdade, havia um pormenor que me preocupava, a possibilidade de ser atacado pelo “galo”. Com os machões da capoeira posso eu bem (sobretudo num arroz “pica no chão”). Os celebérrimos e coloridos galináceos artesanais, ex-libris da cidade minhota, sendo de puro barro ou da mais fina porcelana, também não me faziam perder o sono. No entanto, não teria qualquer hipótese contra o indesejável – “Ganda galo, meu!”.
 
Um mapa predominantemente verde, de numerosos detalhes, com desnível acentuado e ainda para cúmulo nuns pesados 5.500 metros, configurava o tipo de percurso, onde poderíamos tropeçar num “galo do caraças”, não obstante existirem caminhos para todos os gostos e feitios, realidade que até veio complicar, pois obrigava sempre a equacionar uma segunda opção – “Ena tanto mato...vou pelo caminho”.
 
Estas preferências devem ter empolado, quase em cinquenta por cento, a quilometragem da maioria. Uma pretensa prova de distância média, que se transformou numa desgastante longa, com as famigeradas rampas a fazerem alguma mossa (para quem não vem munido de redutoras é uma consumição, hehe).
 
Apesar do elevado número de controlos (21), a maioria não deu azo a grandes problemas técnicos, mas o mesmo não posso afirmar, no que à vertente física diz respeito. A “istória” resume-se a duas ou três pernadas. Na progressão para a décima baliza, que em linha recta não atingia os 600 metros, para fugir a uma zona de vegetação bem cerrada, optei pelos tentadores caminhos, que me fizeram percorrer quase o dobro, deixando-me à beira da exaustão (e a procissão ainda ia no adro).
 
Este ponto (115 por coincidência), localizado numa linha de água, entre dois socalcos de pequenas poças, encontrava-se cercado de silvados que não permitiam distinguir com clareza, por onde descia o leito do riacho. Depois de o picar e enquanto recupero os bofes, analiso o mapa para me orientar, contornando a água em busca dum carreiro do outro lado e quando o vislumbro, decido atravessar negligentemente por uma ponte natural (o que eu julgava ser umas pedras revestidas de silvas).
 
Ao colocar o pé e pela fraca consistência do terreno, imediatamente ouço o aviso de perigo – “cuidado que é oco” – mas a minha “vozinha” não foi suficientemente lesta. E no instante seguinte enfio num buraco, escorregando até bater com os pés no chão, que pelo chapinhar me pareceu ser o riacho. Aqueles segundos que medearam entre a sensação de que vou cair e o momento que encontro terra firme, não deram para pensar em nada (ia como um passarinho). A partir daí é que o drama se inicia.
 
Fiquei apenas com os ombros e cabeça de fora, com água pelos tornozelos, rodeado de silvas e mal podendo movimentar os braços. Tentei puxar as mãos para cima para conseguir trepar, mas não tinha espaço para me erguer e corria o risco de me picar valentemente. Não se via ninguém, o que era natural, pois fui dos últimos a partir e já tinha perdido imenso tempo. Comecei a temer o pior – “vou ter de aguardar pelo pessoal que vem levantar os pontos”, já que me encontrava a escassos metros da baliza. Pelo menos não me tinha magoado seriamente, para além dum tornozelo que sentia a latejar, pela pancada da queda.
 
Passei uns angustiantes minutos (dois ou três?...nem sei bem), a empurrar silvas para poder retirar as mãos, o que vim a conseguir, quando surge um atleta (que não vou identificar), ao qual grito por ajuda…Gostaria de passar por cima deste momento, deveras deprimente, mas acho que não devo…Olhou para mim, ou seja, para a minha cabeça, pois não devia descortinar mais nada, como se eu ali não estivesse e continuou como se nada fosse, sem me dirigir qualquer palavra, apesar de eu ter berrado novamente.
 
Fiquei perplexo, quase em estado de choque, com a insensibilidade demonstrada e nem queria acreditar que ele não me iria auxiliar, mas a triste realidade é que “saiu de fininho”. Julgaria ele, que aquela cabeça com o patusco boné pertenceria a algum duende da floresta e amedrontou-se? Haja alguém que o informe, que o “espécie” pode até não existir, mas o Luís é de carne e osso, c`os diabos!
 
Porventura, esta atitude terá acordado os meus instintos de sobrevivência, que abstraí-me das silvas, indo buscar forças ao fundo do buraco e aos meus frágeis bíceps, esgadanhando as paredes, consegui soerguer-me um pouco, fincando os joelhos e upa!...o “espécie” emergiu da tumba qual “zombie”, mas o ranger estranho que eu ouvia eram os meus dentes, hehe.
 
Continuei de imediato a prova, para não meditar demasiado no assunto, mas uns poucos de metros mais à frente, ouço alguém a interpelar-me – “não se magoou pois não?”. Ao reparar no mesmo personagem de há pouco, nem lhe respondi, de furibundo que estava, preferindo pensar que ele não se apercebeu da gravidade da situação. Se eu seguia ali a correr pelo monte acima, que raio de pergunta foi aquela? Vou gravar este episódio num pedaço de gelo, para não me incomodar. Mas é preciso ter muito galo, para se calhar, ter caído no único buraco existente na área e aparecer o atleta detentor do mais baixo nível de fair play da orientação nacional.
 
Após esta cena, a roçar o surreal, o cenário só podia melhorar. Os pontos seguintes obrigaram-me a um esforço físico suplementar, pois aqueles minutos de alta adrenalina, sufoco e algum pânico tinham quebrado as minhas parcas energias. O que eu necessitava era de encontrar os prismas, o resto passava a ser secundário. Por cada ponto que controlava, o ânimo ia aumentando, gerando forças renovadas para continuar a luta contra a adversidade do terreno, dado que os problemas de progressão se mantiveram quase até ao final.
 
No ataque à penúltima baliza, para evitar efectuar mais uma pernada de excessiva metragem, decidi invadir uma zona de quintais em patamares sucessivos (cuidado com os Bobis), para aceder rapidamente ao ribeiro e de seguida subir a derradeira encosta das chegadas. O que me custou descer até à água...senta...salta...ai os meus joelhos...botas no riacho…e finalmente trepar para o caminho, pelo meio de silvas. Arre! Isto é que é uma “galinha”!
 
Quase duas horas depois, extenuado, melindrado, aflito com o nó que não me desatava da garganta, mas satisfeito por ter superado as contrariedades e acima de tudo, são e salvo (rijo como um pêro), termino uma prova para mais tarde recordar...ou não. 

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sábado, 15 de agosto de 2020 – 19:53:22

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