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Corrida das Fogueiras

35ª Corrida das Fogueiras
28 de Junho de 2014

 

A minha Corrida das Fogueiras:

 

Com a cabeça cheia de rock 'n' roll, a alma repleta com um turbilhão de emoções a fervilhar e o coração a transbordar de alegria, assim me apresentei em Peniche. 

 

Talvez o facto de fazer já algum tempo sem participar em provas tenha também contribuído para este estado: queria correr, uma vontade louca de sair por ali disparada a correr na noite de Peniche invadia-me a alma, percorria o meu corpo e despertava-me um prazer há algum tempo adormecido.

 

Houve alguns treinos para a distância e características da prova. Treinos suficientes para fazer a prova, entenda-se. Não muitos nem muito bons, mas acreditava que seriam suficientes. No entanto sabia que teria de ir com cautela. Afinal há muito que não corria a ditância e estava bem consciente que o facto de nas últimas 48 horas ter dormido apenas 2 com muita agitação e quilómetros de estrada à mistura, não prometiam grandes prestações nem me colocavam na melhor das formas físicas desejáveis para fazer a prova com prazer e acabá-la bem, que é sempre o meu objectivo.

 

Surpreendentemente verifico que me foi (aleatoriamente, como aconteceu com outros atletas também, o que é no mínimo caricato) um dorsal VIP. VIP eu? Pois sim... cá em casa talvez. Mas aproveitamos sempre para brincar com estas coisas. Verdadeiramente Importante Pessoa, traduzo livremente e admito que é verdade sim senhora, o dorsal foi-me muitíssimo bem atribuído!

 

O dorsal VIP permite-nos algumas regalias e se algumas dão muito jeito, o podermos partir na 1ª linha, é para mim, é uma completa loucura e se por momentos me vi tentada perante a insistência de uma colega de corrida que também lhe tinha calhado em sorte um dorsal VIP, e queria partir da frente, quando lá chego e vejo aquele mar de gente frenético, compacto entre as grades, a segurar os cronómetors, nervoso a dar à perninha, à espera do tiro para se soltar, voltei de imediato à realidade e decidi partir de trás. Partir dali seria uma completa patetice. Prejudicaria os que lá estavam por mérito e prejudicar-me-ia a mim também. Só iria estorvar, e corria sério risco de ser abalroada. Uma completa loucura e estupidez, na minha opinião, claro. Ela ficou, eu voltei lá para trás para partir numa zona com nível e andamento mais adequado à minha condição física.

 

Tiro dado e só passo a linha de Partida já tinham decorrido 3 minutos de prova. Precisamente só aí nos é possível começar a correr. Bastante congestionamento, abrandamentos porque há imensa gente e a rua é estreita (metada da rua, separada por grades).

 

Por isso o 1º km é corrido de forma tão lenta. Depois disso ia-se relativamente bem. Andamento bom (para mim) e lá fui somando quilómetros entre muita gente. 

 

Depressa estamos de novo na zona da meta, onde temos 6 Km percorridos e onde ficam os participantes nessa distância (Corrida das Fogueirinhas), para então a Corrida das Fogueiras começar verdadeiramente. Já há menos gente aglomerada e corre-se sem qualquer dificuldade. 

 

Muito público pelas ruas de Peniche. A aplaudir, a incentivar, a animar. Só por isso já valeria a pena.

 

E já ao lado do mar, onde os candeeiros se apagam começam elas a surgir. Aqui e ali, a crepitar brilhantes e a soltar fagulhas a esvoaçar com o vento. A iluminar o caminho, a dar às silhuetas dos atletas formas esguias e fantasmagóricas. Fantasmas à solta pelo asfalto, ao lado o mar com o inconfundivel odor salgado, misturado agora com o delas. As fogueiras.

 

Todos estes quilómetros junto ao mar, são a essência da Corrida das Fogueiras. Assim o sinto, assim o vivo. A estrada sobe e desce mas eu gosto. Muito! Vento na cara, nas pernas no peito. Encho-o com aquele mar e elevo-me. Sinto-me bem. O Paraíso está aqui e eu estou dentro dele.

 

Sinto-me tão bem que mesmo com os desníveis acelero o passo. Com naturalidade. Com facilidade. Cavalo à solta feliz é como me sinto. Aquela vontade louca de sair por ali disparada a correr na noite de Peniche preenche-me a alma, percorre-me o meu corpo e sai em cada poro em forma de suor, em cada passada, em cada inspiração. 

 

Tantas crianças pelo caminho de mão esticada para lhe tocarmos. Ganho energia em cada uma que toco. Que toco propositadamente mesmo fazendo curtos desvios à minha direcção que supostamente deveria de ser em linha recta, o mais curta possível para chegar à meta. Mas não, a vida não é uma linha recta. E ganho energia e alegria e amor em cada mão pequenina tocada. 

 

Acredito que os pais daquelas crianças não se vão esquecer de lhes mandar lavar as mãos com água abundante e espuma de sabão azul e branco ou de outra cor qualquer. É que as nossas mãos estão suadas, têm vestígios de fluido nasal porque já o limpamos várias vezes para o libertar do nariz, facilmente produzido pelo vento e pelo exercício. Sorrio com esta ideia. Mas não me preocupo e não dispenso uma mãzinha também ela consporcada, por tantas que já lhe bateram, e toco-lhes e eles sorriem de olhos brilhantes a reflectir a chama das fogueiras. E eu sigo mais rica, mais forte e mais feliz.

 

E assim, depressa demais chego ao km 14. Depressa demais porque queria e podia mais. Não queria que acabasse já... Mas a prova é de 15 km. Acelero mais. Estou tão, mas tão bem! Pernas, coração, cabeça. Estou completa. só me falta chegar à meta e reencontrar o meu pai. 

 

De novo, um corredor de gente a gritar-nos, incentivando-nos. Não vejo o meu pai. Corto a meta.

 

Aguma confusão para sair dali. Muitos atletas chegados e há demasiada aglomeração. Muita confusão e águas ali, medalhas acolá passadas de mão em mão. Não gostei.  Saio dali o mais depressa que pude e procuro o meu pai no nosso ponto de encontro. Lá está ele. Está tudo bem portanto. Mais uma Corrida corrida e bem vivida. 

 

Saio de Peniche muito feliz. Porque corri, perguntarão? Não, por um milhão de boas sensações e emoções vividas, isso sim!

 

Ana Pereira

http://mariasemfrionemcasa.blogspot.pt/

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