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1º Trilho das Lampas

Assim que soube que se ia realizar, num ímpeto de coragem (ou pode-se chamar outras coisas, como loucura, inconsciência, impulso, etc, etc), de imediato disse que ia!

Era o 1º Trilho das Lampas e a rapariga estava decidida a vencer as dificuldades que adivinhava e/ou temia em tal evento. 

Há muito que se apaixonara pela Montanha, por trilhos, por correr no meio da Natureza. Mas há nela uma boa dose de medo, de falta de confiança a roçar a mariquice, e o espírito aventureiro está refreado por razões que se prendem com a racioalidade, a sua segurança e integridade física. Não a assustam as subidas nem as altitudes, mas sim as descidas íngremes, perigosas, os trilhos à beira de precipícios e se nunca teve uma verdadeira má experiência, já passou por algumas situações onde o medo foi maior que o prazer e não é para isso que ela corre.

No entanto, depois de muito ler, observar atentamente videos e fotos que se fizeram em treinos preparativos precisamente no mesmo belíssimo percurso em que decorreria a prova, a vontade de ir era maior que o medo.

Mas as semanas foram passando e a preparação para trilhos tinha sido nula e memo em estrada, a preparação era parca para percorrer 18 km com boas subidas (distância anunciada), e 2 dias antes da prova, já estava decidida a não ir. E logo ali arranjou um lote de boas razões: 

- Inexistência de equipamento adequado (nem ténis próprios nem frontal, este último que era obrigatório);

- Pouca experiência em trilhos e nenhuma em trilhos à noite, que já se sabia que a prova entraria pela noite dentro, pelo menos para ela (partida dada às 19h30hrs);

- Pouca preparação física;

E...medo, sim o medo pesava que nem chumbo para validar e reforçar as razões acima. Essa era a verdade. Medo de cair. Medo das descidas. Medo de torcer pés, coisa para a qual tem alguma tendência. Medo dos abismos onde já se imaginava estatelada no fundo com alguns ossos partidos. E ela não queria isso!

Estava vencida. Não ia!

Devia no entanto uma palavra ao seu amigo Fernando Andrade, organizador deste 1º Trilho e a quem desde o início ela comunicara e garantira a sua presença. E assim, 2 dias antes da prova, passa de novo do "Não vou" para o "Vou!". Porque a vontade dela era grande e o que a tolhia era o medo, não foi difícil ajudá-la a alterar a decisão. O tempo e o terreno estava seco, os ténis de estrada iam aguentar-se muito bem e o frontal também com facildade lhe emprestariam. A importância das palavras e dos actos mais uma vez a alterarem-lhe do destino. Obrigada Fernando Andrade!

E assim, no dia 4 de Maio de 2013, ao fim da tarde, estava a rapariga em São João das Lampas, num ambiente festivo a lembrar a Meia Maratona de São João das Lampas. Uma tenda, um pórtico, espaço vedado com fitas, e tudo muito acolhedor a receber bem quem se decidiu a vir. E vieram 295 que cortaram a meta dos Trilhos! 

Os dorsais levantam-se com regularidade e tudo está a postos. A partida é dada a horas. Sai-se de S.João das Lampas e depressa se encontram os atletas no meio do verde. Serras e mais serras e vales. O caminho para a praia, onde ela chega já com o Sol posto mas ainda claridade para apreciar toda a beleza e magnitude da Natureza.

As subidas são duras. Como se previa. As descidas...fazem-se "bem", com algum cuidado que é necessário. Caminha-se. As fitas a marcar o percurso. As fitas com refletor para marcarem o percurso quando já for noite e a luz do frontal lá incidir.

Um posto de controlo com pulseira de borracha. Muitos e muitos bombeiros e pessoal da organização em pontos estratégicos do percurso, a avisar do perigo, a zelar pela segurança. Dois abastecimentos, um de água, outro de água, laranja e banana. Dois elementos da organização a fazerem de carro-vassoura, para garantirem que ninguém ficasse para trás. Um trabalho magnífico e perfeitamente executado por duas meninas, a quem dou aqui os meus parabéns pela responsabilidade e postura que tiveram: Catarina Pardal e Joana Freire.

A rapariga está nas nuvens. O 1º Trilhos das Lampas está tão bem organizado que ela se sente levada por entre toda aquela beleza. Só tem de se deixar envolver, esforçar-se e ser ela. Gosta das subidas. Gosta das pontes. Gosta dos riachos que atravessa, da água que corre, dos seixos na praia.

Não gosta do escuro onde já só vê o chão que pisa. Mas há sempre alguém da organização a "ajudar": "cuidado aqui, ali há pedras, à frente há buracos, cuidado".

A rapariga venceu os medos. Não que não o sentisse numa ou outra descida, mas um misto de prazer e medo proporcionou-lhe novas sensações, tal era o equilíbrio. E vencer esse medo entre esta e aquela subida, deu-lhe um novo gosto, uma sensação libertadora, de conquista, de liberdade, de vitória.

Não duvida também que o facto de ter sempre (quase sempre) conseguido acompanhar o seu amigo Joaquim Adelino, atleta de grande carácter e muita experiência destas coisas, ao ponto de estar a preparar uma vez mais os 100 Km de Portalegre, daqui a 2 semanas, lhe deu a segurança que lhe faltava. Houve alturas que o seguia tão de perto que seguia as suas passadas e só pensava "O Adelino sabe! O Adelino sabe escolher o melhor caminho! Pisa aqui, pisa ali. Não lhe percas a peugada! Segue-o!" E seguiu-o! Até à meta! 

Tem estre Trilho umas partes em alcatrão, nomeadamente uma boa parte no final, que permitia correr e alargar a passada a quem ainda tivesse força para isso. Ela teve. Mas seguiu sempre junta com o Adelino. Sentia-se bem assim! Muito bem!

Na meta, a habitual animação, apesar de ser noite escura. Fotografias para todos recordarem esta prova fantástica. 

É oferecida sopa, chá, fruta, bolos e traz o saco uma pequena lanterna também. Há ainda instalações para banho embora a água seja fria, e são facultadas mesas e assadores para quem quis trazer comida e ali cear, ao mesmo tempo que convivia entre amigos.

Houve umas atrapalhações com as classificações na entrega de prémios mas tudo se resolveu. Poucas horas depois, estavam as classificações disponíveis on-line, na Xistarca.

Houve alguns perdidos também pelos trilhos, fruto de uma ou outra indicação mal posicionada ou mesmo misteriosamente desaparecida. Mas depressa todos reencontraram o seu caminho.

Os abastecimentos de água são servidos em copos e logo ali há sacos de lixo para lá serem depositados.

Já mais perto da Meta, noite cerrada, já na povoação, o caminho é indicado por archotes que iluminam e aquecem com as suas chamas vivas e transportam-nos a um mítico passado. 

A rapariga sente-se estrondosamente bem e corre desta vez especialmente feliz.

Para ficar mais feliz, só se tivesse lá o seu pai na Meta a esperá-la... Não estava desta vez, mas virão mais oportunidades! 

A rapariga, não que tenha perdido o medo e seja já uma guerreira afoita para grandes desafios, mas procura já outros trilhos onde a dificuldade técnica seja moderada, como este! Ideal para estreantes! E houve vários nesta prova! E tem já um ou outro debaixo de olho! E aceita sugestões! Quer continuar a vencer o medo, tantas vezes infundado ou exagerado, e a sentir esse prazer especial em cada passo dado, em cada inspiração no meio do mato, em cada perfume exalado pelas plantas e arbustos, no céu que a envolve, no Sol que se deita, no Mar que respira, enfim... estar na Natureza e ser a Natureza, é absolutamente transcendente e a rapariga sai de S.João das Lampas em absoluto deleite.

Gostaria de chegar à praia a tempo de ver o Sol pôr-se. Talvez se a prova começasse mais cedo, pensa, mas sabe também que isso depende muito do ritmo de cada um e será difícil agradar a todos.

Para o ano, está lá caída de novo! Caída...salvo seja, que não se querem quedas!

Muitos Parabéns a toda a Organização, muito especialmente ao seu maior mentor: Fernando Andrade, mas não esquecendo toda a equipa que pôs isto de pé! Uma vez mais S.João das Lampas mostra que é capaz! Que recebe bem. Faz bem! E está aí para aprender com o que correu menos bem e melhorar!

Ana Pereira

http://mariasemfrionemcasa.blogspot.pt/


 

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019 – 10:15:33

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