Artista procura reescrever a historiografia, incorporando toda uma cultura e herança afro-brasileira apagada dos registos oficiais
Uma casa-escola-ateliê dentro de um bosque na Goiânia, no Brasil. Dalton Paula, artista visual, criou o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes que remete para “um paraíso imaginário na terra”, um “refúgio de beleza idílica e tranquilidade” e que tem a sua origem no livro “O Horizonte” (1933), do escritor britânico James Hilton. Numa aula aberta, organizada pela Escola das Artes, que se realiza a 7 de março, às 18h30, no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica Portuguesa no Porto, Dalton Paula vai falar sobre a sua prática artística: a construção da sua poética através da referenciação de pessoas e espacialidades negras.

Ao longo do seu trabalho, Dalton Paula investiga o corpo negro na diáspora, explorando as relações entre imagem e poder. O artista procura reescrever a historiografia, incorporando toda uma cultura e herança afro-brasileira apagada dos registos oficiais. As suas obras, como "Rota do Tabaco" [2016] "Bamburrô" [2019] e "Rota do Algodão" [2022], abordam o Atlântico Negro com elementos que emergem do contexto das comunidades visitadas durante a investigação. Dalton Paula aborda as rotas relacionadas com a exploração de trabalhadores escravizados no Brasil colonial. Como desdobramento de todo o seu percurso na arte, criou o Sertão Negro Ateliê e Escola de Arte que surge a partir do desejo de criar novas rotas para jovens artistas.
Esses territórios quotidianamente reescrevem a história do Sertão, desse Sertão Negro, que define e também expande as fronteiras e se posiciona como centralidade. Numa área de mais de 960 metros quadrados, o Sertão Negro é composto por um espaço central com pé direito duplo. O ateliê possui um forno industrial para queima de cerâmica, porcelana e vidro; uma prensa de gravura e uma biblioteca com cerca de três mil livros. Na choupana são realizadas as aulas de capoeira angola, gravura e cerâmica; e ainda sessões do cineclube Maria Grampinho, cuja proposta curatorial destaca os cinemas negros, o que reitera as nuances educativas e pedagógicas do projeto. O Sertão Negro é um espaço de arte, de cocriação, no meio da floresta da Goiânia, no Brasil.
Esta conferência faz parte do ciclo “Não foi Cabral: revendo silêncios e omissões”, um programa com co-curadoria de Lilia Schwarcz (antropóloga e historiadora brasileira) e Nuno Crespo, que contempla uma agenda de concertos, conferências, exposições e performances, que vão decorrer entre 16 de fevereiro e 24 de maio. O ciclo é organizado pela Escola das Artes, em parceria com a Universidade de São Paulo (Brasil) e a Universidade de Princeton (EUA).
7 de março - 18:30 às 20:00
Aula Aberta com Dalton Paula intitulada “Rotas afro-atlânticas e a educação”
Local: Auditório Ilídio Pinho, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa
Porto – Portugal
Mais informações: https://artes.porto.ucp.pt/pt-pt/eventos/dalton-paula-24241
Dalton Paula
Dalton Paula vive e trabalha em Goiânia/GO; é bacharel em Artes Visuais, educador e idealizador do Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, criado em 2021. Investiga as representações de corpos negros na diáspora africana, desde o período colonial à contemporaneidade, tecendo curas simbólicas, que perpassam o campo histórico-social, econômico e psíquico. O contexto dos terreiros, quilombos, subúrbios e os festejos tradicionais compõem seu processo de pesquisa, que se desdobra para o quilombo-escola e guia as ações artísticas e educativas, que atuam no fortalecimento da comunidade, construindo um lugar poderoso de emancipação e autonomia dos sujeitos. Recebeu em 2023 o Prêmio Soros Arts Fellowship da Open Society Foundation; em 2022 fez a exposição “Rota do Algodão” na Pinacoteca de São Paulo e a individual “Retratos Brasileiros” no MASP. Em 2021 participou da exposição “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca de São Paulo; no ano de 2020 fez sua primeira exposição individual “Dalton Paula: o sequestrador de Almas”, em Nova York, na Alexander and Bonin Gallery. Em 2019 foi um dos cinco premiados da 7ª edição do Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas; e expôs no “36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).
Em 2018 foi selecionado para a Trienal “Songs for Sabotage” do New Museum em Nova York/EUA. Também integrou a 11ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul - “O Triângulo Atlântico”, em Porto Alegre/RS; e teve trabalhos na exposição “Histórias Afro-Atlânticas” (MASP e Instituto Tomie Ohtake). Em 2017 participou da exposição “The Atlantic Triangle” (Instituto Goethe, Lagos/Nigéria) e no ano de 2016 foi um dos artistas convidados para a 32ª Bienal de São Paulo.