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AMMA: Como começou a sua ligação com as artes marciais e o que o motivou a criar a Bueno Editora?
Fábio Bueno: Meu primeiro contato com as artes marciais aconteceu no Exército Brasileiro, onde me formei como segundo-tenente. Após deixar o quartel, continuei meus treinamentos em outras cidades, iniciando no full contact e, posteriormente, migrando para o taekwondo. Mais tarde, já envolvido com a edição de revistas especializadas, tive a oportunidade de treinar também aikido, karatê shotokan e hapkido, ampliando minha vivência nas artes marciais. A criação da Bueno Editora surgiu de uma necessidade: as editoras para as quais eu produzia revistas decidiram encerrar suas publicações na área. Foi então que percebi a importância de dar continuidade a esse trabalho de forma independente, criando um espaço dedicado exclusivamente às artes marciais e à valorização de seus praticantes e mestres.

AMMA: A Bueno Editora tornou-se uma referência em publicações marciais. Qual foi o maior desafio nesse percurso?
FB: Foram muitos desafios ao longo dessa trajetória. É muito diferente trabalhar para alguém e depois assumir a responsabilidade de administrar a própria empresa. Em um curso de empreendedorismo ouvi uma frase que se confirmou na prática: “Ao abrir uma empresa, você precisa estar preparado para dedicar todo o seu tempo, deixando de lado lazer e até parte da convivência com família e amigos.” Isso foi exatamente o que aconteceu, especialmente porque trabalho com livros e revistas impressas, que exigem dedicação constante.
No entanto, o maior desafio tem sido mostrar ao público o verdadeiro valor do meu trabalho e fazê-los compreender os benefícios que essas publicações oferecem. Mais do que produzir conteúdo, é preciso educar o mercado sobre a importância de preservar e divulgar a cultura das artes marciais por meio das revistas e livros.

AMMA: Na sua opinião, qual é a importância da literatura especializada para o desenvolvimento das artes marciais no mundo?
FB:O conhecimento é a base de qualquer evolução. Sem ele, não há como crescer de forma consistente. A literatura especializada é uma das formas mais eficientes de transmitir esse conhecimento, preservando técnicas, histórias e filosofias que moldam as artes marciais.
Não basta ser um grande atleta ou um exímio praticante se não houver compreensão teórica e cultural por trás da prática. Os livros e revistas oferecem essa profundidade, permitindo que o praticante se torne não apenas melhor fisicamente, mas também mais consciente e preparado.
Além disso, estar presente em uma publicação traz credibilidade e reconhecimento, elevando o praticante ou mestre a um novo patamar dentro da comunidade marcial. A literatura, portanto, não apenas informa, mas também valoriza e legitima o trabalho de quem dedica sua vida às artes marciais.
AMMA:O Mestre já publicou obras com grandes nomes, incluindo o Mestre Vítor Gomes de Portugal. Como surgiu essa parceria e o que destaca no trabalho dele?
FB:As parcerias para os livros geralmente surgem de forma orgânica: os próprios participantes indicam pessoas que têm o perfil adequado para integrar o projeto. Foi assim que cheguei até o Mestre Vítor Gomes, que recebeu excelentes recomendações.
Ele é um líder de uma modalidade tradicional, a luta galhofa, e justamente por isso sua participação foi de suma importância. Registrar e divulgar esse trabalho é fundamental para preservar uma prática cultural única e dar visibilidade a um mestre que representa com seriedade e dedicação essa tradição.
AMMA:Os eventos internacionais que organiza reúnem mestres de várias partes do mundo. Qual é o principal objetivo desses encontros?
FB:O principal objetivo desses encontros é valorizar os participantes das obras publicadas, oferecendo a eles uma oportunidade única de ampliar seu networking e fortalecer sua presença no meio marcial. Além disso, os eventos criam um espaço de troca de ideias e experiências entre mestres de diferentes países e modalidades. Esse intercâmbio é extremamente enriquecedor, pois permite expandir conhecimentos, conhecer novas perspectivas e consolidar a união da comunidade marcial em nível internacional.

AMMA:O evento dos Grandes Mestres de 2025, realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, teve grande repercussão. Como foi essa experiência?
FB:Realizar o evento na Assembleia Legislativa de São Paulo foi uma experiência marcante. Esse espaço institucional dá ainda mais força e visibilidade ao trabalho, resultando em um movimento que enaltece e valoriza cada um dos participantes.
A cada edição, percebemos um crescimento significativo: o evento atrai mestres de diferentes estados brasileiros, mesmo diante das dificuldades de deslocamento em um país de território tão extenso, e também recebe cada vez mais representantes internacionais. Essa diversidade fortalece a troca cultural e consolida o evento como um verdadeiro ponto de encontro das artes marciais em nível global.
AMMA: Na sua visão, como as artes marciais têm evoluído nos últimos anos, especialmente na Europa e no Brasil?
FB: Assim como o ser humano evolui, as artes marciais acompanham esse processo. No passado, muitas vezes eram vistas com o estigma da violência. Hoje, felizmente, esse cenário mudou: as artes marciais são reconhecidas como instrumentos de formação de bons cidadãos, inclusão social, promoção da saúde e autodefesa.
Mais do que técnicas de combate, elas passaram a ser compreendidas como uma verdadeira filosofia de vida, capaz de transformar pessoas e comunidades. Tanto na Europa quanto no Brasil, vemos esse movimento de valorização, em que a prática marcial é entendida como um caminho de disciplina, respeito e desenvolvimento integral.

AMMA: Que critérios utiliza para selecionar os mestres e conteúdos que publica na Bueno Editora?
FB: O título Great Master significa “grande professor” e não “grão-mestre”. Para participar, é essencial que a pessoa tenha alunos e esteja lecionando artes marciais ou esportes de combate. Também aceitamos profissionais que ensinam defesa pessoal, desde que estejam federados ou mantenham uma associação aberta e ativa.
Além disso, avaliamos currículos enviados por interessados, mas a maior parte das seleções acontece de forma direta: convido mestres que conheço em eventos ou que são indicados por participantes das edições anteriores. Dessa forma, garantimos que os conteúdos publicados tenham legitimidade, representatividade e estejam alinhados com a missão da editora de valorizar e preservar a cultura marcial.

AMMA: Que conselhos daria a novos autores ou mestres que desejam divulgar o seu trabalho através de livros e revistas?
FB:Muitas pessoas acreditam que a mídia impressa é coisa do passado, mas eu sempre reforço que ela continua sendo extremamente relevante. Incentivo novos autores e mestres a participarem de livros coletivos, escreverem suas próprias obras e se promoverem por meio das revistas especializadas.
Na internet, o conteúdo se perde facilmente em meio a uma imensidão de informações, como uma gota d’água no oceano. Já na mídia impressa, o espaço é mais seletivo e, justamente por isso, agrega valor e credibilidade. Publicar em papel é um diferencial, principalmente para aqueles que têm visão empreendedora e de futuro. Eu costumo dizer: papel é documento. Ele simboliza durabilidade, legitimidade e garante que o legado do autor ou mestre seja preservado e reconhecido por muito mais tempo.

AMMA:Quais são os próximos projetos da Bueno Editora e dos eventos internacionais que organiza?
FB: Para o final de outubro de 2026, após o lançamento da 17ª edição do livro Great Masters of Martial Arts, realizaremos um grande evento de homenagens na Baixada Santista, litoral de São Paulo. O encontro acontecerá em uma cidade turística, em um clube tradicional localizado em uma ilha, e será denominado Centurion Award.
O prêmio principal será destinado aos mestres que já formaram mais de 100 faixas pretas, reconhecendo sua dedicação e impacto na comunidade marcial. Além disso, teremos outras distinções importantes, como o Troféu Grandes Mestres e a Medalha Marcial, valorizando diferentes contribuições e trajetórias dentro das artes marciais.
Texto: Vitor Gomes
Fotos: Cedidas por Fábio Bueno