16 anos ao serviço do Desporto em Portugal

publicidade

 

Mohammed Qissi em Chaves para o “VI Estágio Samurai Inter-Estilos"

 

“VI Estágio Samurai Inter-Estilos Cidade de Chaves” é um evento sobre o combate no cinema, dirigido por Mohammed Qissi e conta com a organização da  “Associação Portuguesa o Samurai”. Os seus destinatários são praticantes de artes marciais transversais às mais diversas artes e estilos e mesmo para não praticantes mas que gostem do tema. Ou seja um formato diferente ao que estamos habituados a ter em Portugal.

 

 

Mohammed Qissi, também conhecido por Michel Quissi, irá partilhar com os participantes os seus conhecimentos nesta arte e também irá disponibilizar algum tempo para estar de perto dos participantes para uma pequena conversa, uma “foto de família” assim como os respectivos autógrafos. O número de inscrições é limitado, tendo em conta que tem que se cumprir o programa de forma a que após os ensinamentos de Qissi todos tenham a oportunidade de estar um pouco com ele.

Mohammed Qissi nasceu em Marrocos em 1962. Em 1964 mudou-se para Paris com o seu pai e irmão, pouco depois foram para Bruxelas.

 

Iniciou a prática de boxe com sete anos de idade e em 1975 conhece Jean-Claude Van Damme no mesmo edifício onde eles praticavam desportos de combate.

 

Depois disso em 1982 Mohammed Qissi vai para os Estados Unidos da América para lá desenvolver a sua carreira em conjunto com Jean-Claude Van Damme. Ele combateu em muitos filmes famosos como Bloodsport, Kickboxer (o famoso vilão Tong Po) entre outros. Qissi é também coreógrafo em filmes de artes marciais.

 

Ele foundou a WCCF - "World Cinema Combat Federation” em conjunto com o Mestre Beom Jhoo Lee.

 

Vamos falar com Mohammed Qissi.

 

AMMA – Quando iniciou a prática de boxe na Bélgica imaginava vir a ter esta carreira no cinema?

 

Mohammed Qissi – Naquela altura eu praticava Boxe como iniciante. No piso acima do local onde eu treinava, Jean-Claude treinava Karaté. Ele gostava muito de boxe e descia o piso muitas vezes para nos ver a treinar. Eu comecei a treinar aos sete anos e ele aos nove. Passámos a ser grandes amigos. Ele conseguiu ser campeão em Karaté e eu em Boxe. No início não pensámos no cinema. Nós gostávamos de cinema mas o nosso foco era concentrarmo-nos, o Jean-Claude no Karaté e eu no Boxe. Quando crescemos, pelos nossos 15 ou 16 anos, começámos a pensar cada vez mais no cinema.

Então em 1982 decidimos ir os dois para Hollywood e foi muito duro, de 1982 a 1986 foram quatro anos extremamente duros. Em 1986 tivemos a nossa primeira hipótese, uma produção na Canyon Productions.

 

AMMA – Quando emigrou para os EUA com Van Damme foi com mentalidade de aventura?

 

MQ – Sim, foi uma aventura. Chamaram-nos loucos por termos trabalhado muito tempo para juntar dinheiro para o bilhete de avião, pois em 1982 era muito caro e as pessoas não entendiam isso. É que mesmo a falar inglês era complicado, e naquela altura não falávamos inglês. Não tínhamos trabalho lá e havia Americanos em Hollywood que nunca tinham tido sucesso no cinema, ou seja era como se fosse um sonho sem pernas para se tornar realidade. Era melhor ficar aqui e esquecer o sonho. Mas tanto eu como o Jean-Claude fizemos esse sacrifício, juntámos o dinheiro e fomos à aventura. Quando as pessoas nos viram abalar diziam que uma semana depois estávamos de regresso, mas acabámos por ficar por muitos anos. É como disse, foram quatro anos muito duros até termos a grande oportunidade. Em 1984 tivemos uma primeira intervenção num filme: “Break Dance” com Van-Damme e Qissi, foi um à parte, o nosso papel era principalmente aplaudir e dançar no meio das pessoas numa praia havaiana. Foi uma primeira oportunidade, ficámos muito felizes com ela.

 

 

AMMA – Como foi a experiência de conhecer Jean-Claude Van Damme e começar a trabalhar com ele? Que boas memórias tem dos primeiros anos em que o conheceu e começou a vossa amizade?

 

MQ – De boas memórias… na altura em que eu tinha uns 8 anos e chegou ao dia da mãe, não tinha dinheiro para comprar uma prenda à minha mãe. Ele viu-me triste e perguntou porquê e eu expliquei-lhe que era o dia da mãe e não conseguia dar uma prenda à minha mãe. Ele levou-me ao seu quarto, pegou no cofre e disse que eu era a primeira pessoa a quem ele dava  o seu código (ele devia ter 10 anos), abriu-o e deu-me algum dinheiro para eu comprar a prenda da minha mãe. Esta é uma recordação muito bonita.

 

 

AMMA – Tem uma grande carreira nas artes marciais e cinema. Dos papéis que teve, quais foram mais desafiantes e gratificantes para si?

 

MQ – O mais difícil e desafiante que tive foi mesmo o Tong Po, porque tinha uma maquiagem muito intensa na cara e foi difícil, mas gostei do papel, fiz o que me apaixona.

 

AMMA – De facto as coreografias são desenhadas antes dos combates, fazem parte do guião, mas quando está a lutar com outro actor, é difícil enquadrar a história com ele? Como é para si simular um grande soco ou um grande pontapé sem causar ferimentos um no outro?

 

MQ – Nas cenas de luta, trabalho intensamente nelas, pois é a minha especialidade. Como em Bloodsport, Kickboxer, Lionheart… a primeira coisa que temos que fazer é escolher as pessoas certas para as cenas de luta para evitar os acidentes. Claro que os acidentes de tempos em tempos acontecem, mesmo sendo o melhor dos melhores. Por vezes, por estar cansado. São muitas horas e há contacto um com o outro, mas sendo um bom e forte lutador, digo, não tem problema,  não precisamos de interromper as câmeras, o som, tudo... temos que seguir mesmo havendo contacto. Eu mesmo já fui fortemente atingido, mesmo por Jean-Claude, é quando são muitas horas de trabalho e nós tocamos um no outro. Por isso é que é muito importante em primeiro lugar escolher a pessoa certa para as cenas de luta, que sejam bons lutadores, fortes e que tenham um bom controlo. É o que é necessário ter para se conseguir uma boa cena de luta.

Quando eu faço filmes, tenho contacto com a equipa que vai fazer as cenas de combate quando se faz a pré-produção. Uma pré-produção pode demorar muito tempo. É bom porque nos dá tempo para trabalhar e construirmos a coreografia em conjunto.

Uma pré-produção para um filme pode demorar por vezes mais que um ano, e como temos muito tempo gosto de preparar tudo com tempo, gosto de trabalhar logo no início da pré-produção. Dou-lhes a coreografia, eles trabalham-na, volto atrás, vejo se eles têm algum erro, continuam o seu trabalho, tudo com um bom controlo para ninguém se magoar. É algo que requer muito trabalho. Dá mais trabalho uma pré-produção do que já a produção com as filmagens se alguém se magoa. Podemos evitar isso com a pré-produção.

 

 

AMMA – Para si, pessoalmente, qual é a arte marcial mais versátil para desempenhar um papel num filme? Ou que arte marcial é mais usada em no cinema para lutar com a maioria dos actores?

 

MQ – Para cenas de luta, o estilo não é o mais importante. Pode ser um campeão de Taekwondo, Karaté, Aikido, Judo, Kickboxing… isso não é o mais importante. O mais importante é o Homem [a pessoa], o lutador. Ambas são importantes mas o que pode ser bom é ter uma mistura de artes marciais porque cada pessoa tem o seu corpo e temos que tentar usar o melhor movimento de um estilo e outro de outro estilo e trabalhar com isso, com o que for melhor para trabalhar. Contudo mais importante que o estilo é mesmo o Homem com que se vai lutar. Temos pessoas que são muito boas no ringue, outras no dojo, no tatami ou numa cena de luta real em competição. Eles podem ser muito bons aí mas não quer dizer que por serem bons lutadores, sejam bons lutadores para cinema porque é totalmente diferente. A maior parte das vezes tenho que dizer que se são bons lutadores têm um bom controlo, porque para bater ou não bater em alguém tem que haver um grande controlo porque são milímetros perto da cara do outro, portanto o controlo não é fácil. Ou seja o Homem é o mais importante.

É por isso que quando eu faço um casting não olho para o estilo, se ele fez Kickbox, Karaté, Taekwondo… não é para isso que eu olho. Eu reparo é se ele tem um bom controlo. A acção é muito importante mas mais ainda é a reacção, como ser atingido e fazer uma luta bonita. Ambas são importantes, a acção e a reacção, mas a mais importante é a reacção pois se ela for bem feita faz com que o outro actor pareça fantástico. Por exemplo no Tong Po quando ele me atingia parecia real com a minha reacção. O mesmo se passa com o Jean-Claude ele tem uma reacção muito boa. É isto que “vende a luta”.

 

 

AMMA – O que o levou a criar a "World Cinema Combat Federation”? Havia alguma lacuna entre os actores que tinham o papel do vilão nos combates de cinema com os actores principais? Que mentalidade e prática esta Federação fornece aos seus alunos?

 

MQ – Para responder a esta questão, por exemplo, eu tenho dado estágios de combate em cinema pelo mundo fora e tenho dito sempre a mesma coisa: “O mais importante numa cena de luta (é o que digo aos alunos), é a segurança” para quem ninguém se magoe. Pois quando introduzo uma cena de luta num filme quero ter a certeza que ninguém se magoa. Quando alguém se aleija é um problema. Pode não ser nada, mas por vezes pode ser perigoso e muito mau mesmo. Quando algo de mal acontece tudo tem que parar. Câmeras, som, equipas com cerca de 50 pessoas ou por vezes até 100 pessoas. É muito dinheiro. Por vezes o realizador pode repetir a cena de luta com outros actores para não perder totalmente o tempo. Outras vezes não conseguem, pois estão num local em que têm que terminar as filmagens numa determinada hora. É muito delicado. É isso que transmito aos alunos, entenderem para não chegarem muito perto das caras, do corpo, pois com o ângulo da câmera consegue-se fazer parecer que houve a pancada desde que a reacção seja feita no momento correcto. Basicamente é o que ensino aos meus alunos.

Sobre a World Cinema Combat Federation, não sei se está a falar da que Grande Mestre Beom Jhoo Lee criou, que entretanto já faleceu. O que eu tenho feito é dar seminários onde falo sobre o combate no cinema e está a correr muito bem.

 

AMMA – Deduzo que ensinar seja o seu propósito de vida assim como participar no cinema. O que quer transmitir aos alunos que participam neste estágio em Chaves, Portugal? Qual é a espectativa do seu público?

 

MQ – Ensinar e dirigir estágios ao longo de tantos anos, graças a Deus, as pessoas sentem-se felizes e isso faz-me feliz. O que costumo ensinar, como já lhe disse, ser claro na forma como lhes mostro os movimentos como murros, pontapés de forma a que ninguém se magoe. Graças a Deus, em todos os estágios que eu dirigi nunca ninguém se magoou, pois sou muito cuidadoso.

Eu vejo sempre nos alunos que participam nos estágios os que têm talento ou que seja muito bons e coloco-os à parte. Por outro lado os que vejo que não são tão bons e ponho-os a ver os que são realmente bons. Depois deixo-os descansar. Ponho os muito bons a trabalhar e um deles a tomar notas (registar) durante cerca de 10 a 15 minutos. Depois começam a trabalhar. De seguida ponho a trabalhar durante todo o estágio um aluno bom com um menos bom.

O que espero no final do estágio é que os alunos tenham captado e interiorizado cada movimento e cada tipo reacção ou acção. Espero que ele tenham aprendido algo com o estágio. Mas digo sempre que é necessário muito trabalho. Se querem melhorar têm que treinar isso. No estágio eu ensino e dou conselhos, ensino movimentos e  explico como o segredo é importante. Dou a base, os alicerces mas agora têm que trabalhar, ser fortes, ter paciência. Então aí terão um bom resultado.

 

AMMA – Sabe algo sobre artes marciais portuguesas? Artes como “Jogo do Pau” ou a “Luta Galhofa”? Esta última é de Chaves e dos seus arredores e tem mais de 2000 anos.

 

MQ – Não, não conheço as artes marciais portuguesas. Quando chegar a Portugal quero que me ensinem um pouco das vossas artes marciais. Eu adoro aprender. Será fantástico ter alguém que me ensine e faça uma demonstração. Eu gosto muito de coisas novas, aprender e que alguém em Chaves me mostre as artes marciais portuguesas. Uau com 2000 anos, é quase inacreditável (risos).

 

AMMA – Sobre gravar um filme em Portugal, tem isso em mente? É um bom desafio para si, considerando o portefólio de Artes Marciais Portuguesas?

 

MQ – Sim, porque não? Sei que em Portugal têm locais maravilhosos, jovens talentosos e encontrar um “Bruce Lee português”, um Van-Damme, ou um Steven Seagal, de certeza que encontrávamos com um bom casting. Poderíamos encontrar e fazer um bom filme sobre as artes marciais portuguesas. Tem que se encontrar um patrocinador, alguém que entre com o dinheiro. Saber da pessoa chave que dê a oportunidade a jovens portugueses, possíveis  futuras super-estrelas em filmes de acção.

Ao mesmo tempo estamos a divulgar esses locais de Portugal que atrairá mais turistas.

Com certeza que gostava de fazer um filme em Portugal, basta encontrar investidores.

 

AMMA – Quer deixar alguns conselhos e boas práticas para os jovens praticantes de artes marciais que tenham este tipo de sonho e não sabem como o tornar real.

 

MQ – Sim claro, com prazer aconselho aos jovens que tenham a paixão que eu e o Jean-Claude tivemos por isto nos anos 70. Qualquer um pode atingir. Têm que ser muito fortes, ter muita paciência, ser honestos e terem um trabalho árduo. Para iniciar, fazer como eu e o Jean-Claude fizemos, ser figurantes em filmes, participar em pequenos papeis neles como por exemplo umas festas. Devem ficar a conhecer realizadores e produtores. Conhecer também os cameramans, os assistentes de som, actores e actrizes e seguir degrau a degrau sem pensar em crescer muito rápido. Se crescer rápido, perfeito. Mas a maior parte das vezes leva tempo. Este é o meu conselho.

Também se pode ir pelo teatro, se conseguirem entrar por aí como pelo estilo Broadway, o próprio teatro, pode ser que ajude a ser actores entrando desta forma.

O conselho mais importante que dou é o segredo do sucesso. Ouçam o vosso pai e a vossa mãe. Especialmente a mãe. Como sabem, ela tem um lugar especial para nós no seu coração e isso é muito importante. Ouçam o vosso pai e a vossa mãe, eles amam-vos verdadeiramente. Ouçam-nos. Sigam os vossos estudos, pois ser actor tem o seu tempo. Não há idades para ser actor, mas é necessário ir à escola para fazer os estudos, licenciatura, mestrado, doutoramento… este é o conselho que dou sempre aos jovens. A escola é muito importante. É claro que os desportos ajudam. Ajudam a ter uma mente forte, forte condição física, saúde, paz e amor.

 

Texto: Pedro MF Mestre

 

Fotos: Arquivo pessoal de Mohammed Qissi

 

 


 

 

Periodicidade Diária

sábado, 25 de junho de 2022 – 08:06:34

Pesquisar

Como comprar fotos

publicidade

Atenção! Este portal usa cookies. Ao continuar a utilizar o portal concorda com o uso de cookies. Saber mais...